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Entre o Amor e o Recomeço

Capítulo 2 — Entre Cafés e Confissões

O retorno à cafeteria

Na manhã seguinte ao bilhete, Lara acordou com uma inquietação nova.
Enquanto se arrumava, pensava nas palavras escritas com aquela caligrafia firme e cuidadosa. Era como se cada letra fosse um convite silencioso para cruzar uma fronteira que ela ainda hesitava atravessar.

Ao chegar à cafeteria, percebeu Gabriel na mesma mesa de sempre, mas dessa vez o caderno azul estava fechado. Quando a viu, ele sorriu de um jeito diferente, como quem esperava por algo importante.

— Bom dia, Lara. — A voz dele tinha um calor que parecia aquecer mais que o café.
— Bom dia, Gabriel. — Ela respondeu, sentando-se na cadeira à frente dele.

Primeiras revelações

Entre goles de café e o barulho suave da chuva batendo na vidraça, Gabriel falou sobre a infância. Crescera em uma cidade pequena, filho único de uma professora de literatura. Foi ela quem o ensinou a amar as palavras.

— Acho que escrevo porque não sei ficar calado diante das coisas que sinto — confessou ele.
— Eu desenho pelo mesmo motivo — disse Lara, percebendo que aquela frase descrevia mais sobre si do que jamais havia dito.

Os dois riram, e a conversa seguiu leve, até que Gabriel perguntou, com cuidado:

— E você? Sempre morou aqui?
Lara hesitou por um segundo antes de responder.
— Não. Me mudei depois… de um relacionamento que não deu certo. — Sua voz suavizou no final, como se as palavras ainda tivessem um peso.

Gabriel não pressionou. Apenas acenou com a cabeça, deixando o silêncio confortável tomar conta por alguns instantes.

Confissões veladas

No quarto encontro daquela semana, Lara decidiu chegar mais cedo.
Sentou-se perto da janela e abriu seu caderno de desenhos, algo que raramente fazia fora de casa. Quando Gabriel chegou, ficou observando em silêncio por alguns segundos.

— Você nunca me disse que desenhava tão bem — comentou, inclinando-se para ver melhor.
— Nunca achei que fosse bom o suficiente para mostrar — admitiu ela.

Gabriel sorriu.
— Acho que a gente sempre se engana sobre nossas próprias capacidades. — Fez uma pausa e acrescentou: — Talvez seja por isso que precisei te escrever aquele bilhete. Eu também tenho medo.

Essa última frase ficou ecoando na mente de Lara pelo resto do dia.

Entre o passado e o presente

Conforme os dias passavam, conversas mais profundas começaram a se entrelaçar com o simples ato de tomar café juntos.
Lara contou sobre a vida antes da mudança, o trabalho sufocante que deixou para trás, a relação que começou com promessas e terminou com silêncios.

Gabriel ouviu cada palavra sem julgamentos. E, em troca, revelou suas próprias frustrações: livros recusados por editoras, amizades que se perderam, um amor antigo que não resistiu ao tempo e à distância.

Era estranho como, em tão pouco tempo, eles se tornaram confidentes.
Lara sentia que com Gabriel podia respirar mais fundo, falar sem medir tanto as palavras.

O convite inesperado

Na quinta-feira daquela semana, quando Lara estava prestes a se despedir, Gabriel disse:

— No sábado vai ter uma pequena feira literária no centro. Eu vou participar com algumas crônicas. Gostaria que você fosse.

Lara congelou por um segundo. Parte dela queria dizer sim imediatamente. Outra parte, ainda presa às velhas promessas de autoproteção, hesitou.

— Eu… não sei. — Sua resposta saiu mais baixa do que gostaria.
Gabriel apenas sorriu.
— Tudo bem. Pensa com carinho.

A noite de indecisão

Em casa, Lara não conseguia parar de pensar no convite. Não era apenas sobre ir a uma feira. Era sobre abrir um espaço na sua vida para algo — ou alguém — que poderia mudar tudo.
O bilhete no envelope pardo estava sobre sua mesa. Ela leu mais uma vez:

“Gostaria de saber até onde ela pode ir.”

E, naquele instante, percebeu que talvez a resposta dependesse apenas dela.

Gancho para o próximo capítulo

No sábado, Lara vai decidir se aceita o convite. Uma escolha simples que poderá aproximá-la ainda mais de Gabriel… ou criar uma distância difícil de superar.

Leia o próximo capítulo: “O Peso dos Silêncios”

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