Capítulo 3 — O Peso dos Silêncios
O amanhecer inquieto
A sexta-feira amanheceu cinza e abafada.
Lara abriu a janela, deixando o ar úmido entrar, mas nada parecia aliviar a inquietação que carregava desde o convite de Gabriel.
Enquanto preparava seu café, pensou nas últimas semanas. Desde o primeiro encontro, sua rotina havia mudado — não nos horários, mas na maneira como ela percebia cada instante.
Gabriel, com suas palavras calmas e olhar atento, tinha conseguido abrir pequenas brechas em um muro que ela levou anos para erguer. E, agora, com um simples convite, ele parecia prestes a atravessá-lo.
Quando o silêncio pesa
Lara sempre acreditou que o silêncio era uma forma de proteção.
Depois do fim do seu último relacionamento, ele se tornou um refúgio: ninguém podia machucá-la se ela não se deixasse envolver.
Mas, naquela manhã, o silêncio que antes era confortável começou a incomodar.
Era como se o apartamento inteiro estivesse impregnado com uma pergunta sem resposta: “Você vai ou não vai?”
Uma conversa inesperada
No fim da tarde, decidiu sair para caminhar no parque.
Enquanto observava as árvores balançando com o vento, ouviu uma voz familiar atrás de si.
— Lara? — Gabriel apareceu, segurando um livro sob o braço.
— Gabriel… oi. — Ela tentou sorrir, mas percebeu que seu tom não escondeu o nervosismo.
Caminharam juntos por alguns minutos, falando sobre coisas banais: o clima, o trânsito, o novo café que havia aberto no bairro. Mas, aos poucos, a conversa voltou ao convite.
— Não quero te colocar em uma situação desconfortável — disse ele, olhando para a frente. — Só achei que seria bom você ver o que eu faço.
Lara hesitou.
— Eu sei… é só que… faz tempo que não vou a lugares assim.
— Então é hora de mudar isso — respondeu, com um meio sorriso.
Lembranças que doem
Naquela noite, Lara não conseguiu dormir cedo.
Deitada na cama, lembrava-se de outro convite, anos atrás, feito por alguém que ela acreditava conhecer bem. Naquela época, as promessas eram doces, mas terminaram em palavras duras e portas fechadas.
Parte dela ainda carregava o medo de que a história se repetisse.
O problema era que Gabriel não se parecia com aquele homem do passado.
E talvez fosse isso que mais a assustava — porque significava que o risco era real.
O diálogo que mudou o tom
No sábado de manhã, antes de decidir, Lara foi à cafeteria. Gabriel estava lá, como sempre, mas dessa vez não tinha o caderno azul.
— Pensei que não viria hoje — disse ele, oferecendo-lhe um café.
— Achei que precisava conversar com você antes — respondeu ela.
Ficaram alguns segundos em silêncio.
— Gabriel… eu tenho medo. — A voz dela tremeu levemente.
Ele a olhou nos olhos.
— Todos temos. Mas, às vezes, o medo é só um sinal de que algo realmente importa.
A decisão
O relógio da cafeteria marcava 9h15 quando Lara respirou fundo e disse:
— Eu vou.
Gabriel sorriu, um sorriso aberto, como se tivesse acabado de ganhar algo precioso.
— Então é um encontro.
Gancho para o próximo capítulo
No Capítulo 4, Lara vai descobrir que a feira literária guarda mais do que livros e crônicas. Uma conversa de Gabriel com outra pessoa despertará nela sentimentos que não esperava sentir tão cedo.

