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O Amor à Primeira Vista e a Caçada no Concreto

Capítulo 1: O Segundo Fatídico

O estacionamento subterrâneo do Edifício Central de Negócios era um labirinto frio de concreto e luzes fluorescentes. Para João, 30 anos, era apenas um ponto de partida e chegada, uma extensão cinzenta da sua rotina de advogado corporativo. Até o segundo fatídico que mudou sua vida para sempre.

Ele estava fechando a porta de seu carro, com a mente já nas pilhas de documentos que o aguardavam no escritório, quando ela passou.

Ela.

Alta, vestida em um conjunto de alfaiataria que parecia ter sido desenhado para ela, com um casaco de lã cor de vinho jogado sobre o ombro e cabelos negros e brilhantes que balançavam levemente a cada passo. O que o paralisou, no entanto, foi o rosto: traços delicados, uma expressão séria e, mais importante, os olhos. Eles eram de um azul claro e incomum, e naquele breve momento, quando ela olhou para ele antes de se virar em direção ao elevador, o olhar dela o atingiu com a força de um raio.

João sentiu o chão sumir. Não era atração; era reconhecimento. Uma certeza avassaladora de que aquela mulher, que ele nunca havia visto antes, era a peça que faltava em seu quebra-cabeça existencial. O amor à primeira vista, o clichê que ele sempre ridicularizou, o havia atingido em cheio, no lugar mais inusitado: um estacionamento úmido.

Ele ficou parado, com a chave do carro na mão, assistindo a silhueta dela se afastar e entrar no elevador. O ping do elevador subindo parecia a contagem regressiva para o fim de seu sonho.

“Para! Quem é você?” ele pensou, mas a voz ficou presa em sua garganta.

Quando finalmente se libertou do choque, correu para a porta de vidro fumê que dava acesso ao lobby, mas o elevador já havia sumido. Ele apertou o botão várias vezes, sentindo uma adrenalina desesperada.

Ele subiu, mas já era tarde. O lobby estava cheio de executivos apressados, mas ela não estava em lugar nenhum. Ela havia se dissolvido na rotina da cidade.

A Obsessão no Concreto

A partir daquele dia, a vida de João virou uma caçada. O rosto dela não saía de sua cabeça. Ele não conseguia se concentrar nos contratos; a cada parágrafo, ele via aqueles olhos azuis. Ele precisava encontrá-la. Não era um capricho, mas uma necessidade vital.

Ele começou a caçada no único lugar onde sabia que ela existia: o estacionamento.

Seu novo ritual matinal era chegar ao estacionamento uma hora mais cedo. Ele estacionava em um ponto estratégico e observava. Ele memorizou carros, placas, horários e rostos, procurando o casaco cor de vinho, a bolsa de couro que ela carregava, o jeito de andar.

Ele era o detetive do afeto, o stalker da alma. Ele sabia que parecia loucura, mas a paixão o impulsionava. Ele consultou os seguranças, fingindo ter perdido um documento e perguntando se alguém havia entregado algo para “a moça do casaco cor de vinho”. Ninguém lembrava. Ela era apenas mais uma executiva.

Ele pesquisou nas redes sociais por todas as funcionárias que trabalhavam no Edifício Central de Negócios, filtrando por idade, beleza e estilo, mas sem um nome, a tarefa era impossível.

🔍 Capítulo 2: A Pista e a Segunda Chance

Duas semanas se passaram. Duas semanas de madrugadas frias, café amargo e frustração crescente. João estava à beira da desistência, começando a aceitar que ela era apenas um sonho lindo e cruel que o universo havia lhe mostrado por um segundo.

Naquela manhã, ele estava sentado em seu carro, pronto para ir embora e voltar à sanidade, quando notou algo. No pilar de concreto, perto de onde ela havia parado, havia uma pequena mancha de tinta vermelha, e, ao lado, uma marca de arranhão. Ela havia raspado o carro naquele dia.

Ele teve um lampejo de esperança. Ele correu até a guarita do estacionamento, onde o velho porteiro, Seu Osvaldo, lia o jornal.

“Seu Osvaldo, preciso da sua ajuda! Lembra daquele dia, duas semanas atrás? Houve um pequeno acidente, um arranhão, perto do elevador A! Preciso do registro de quem parou naquela vaga!”

Seu Osvaldo, intrigado pela urgência do jovem, resmungou, mas foi vasculhar os registros de entrada e saída.

A sorte estava do lado de João. O arranhão havia sido registrado por precaução. O porteiro encontrou a placa e o nome: Luísa Dantas. Ela era a nova vice-diretora de Marketing de uma empresa de tecnologia no 15º andar.

O nome era música para os ouvidos de João. Luísa Dantas. O mistério havia ganhado um nome, uma localização.

Ele subiu para o seu escritório, com o coração batendo descontroladamente. Ele não podia simplesmente ir ao 15º andar. Isso seria assustador. Ele precisava de uma abordagem profissional, madura, que não a fizesse fugir.

Ele pesquisou a empresa dela. Descobriu que a Thorne & Co., seu escritório, e a empresa de Luísa, a Tech Innova, estavam negociando um contrato de propriedade intelectual.

João correu até seu chefe. “Preciso me envolver no caso da Tech Innova, Chefe. Tenho um conhecimento exclusivo que pode ser crucial para fechar o negócio.”

Seu chefe, surpreso com o repentino entusiasmo de João por um caso que ele vinha ignorando, concordou.

No dia seguinte, João estava no 15º andar para a primeira reunião. Ele estava impecável, o coração um tambor no peito.

E então ele a viu novamente. Ela estava na sala de reuniões, tão bonita e serena quanto ele se lembrava. Nenhuma palavra sobre o estacionamento. Apenas a apresentação profissional.

Luísa sorriu ao apertar sua mão, um sorriso que iluminou a sala e o futuro de João.

“Prazer, João. Eu sou Luísa Dantas. Vamos fechar um bom negócio.”

A voz dela era tão perfeita quanto ele imaginava.

“O prazer é todo meu, Luísa,” ele respondeu, sentindo a faísca.

O amor que nasceu no concreto e na escuridão do estacionamento havia, finalmente, encontrado seu caminho para a luz do escritório. João sabia que a conquista real começaria ali, no campo de batalha do mundo corporativo, onde ele teria que provar ser digno daquela certeza que sentiu no segundo fatídico. O amor da sua vida estava a uma mesa de distância.

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