Lucas ficou parado no meio da biblioteca escura, ouvindo o som dos passos apressados de Clara desaparecendo pelo corredor. O perfume dela — uma mistura de chuva, sabão de coco e algo doce que era só dela — ainda pairava no ar, brigando com o cheiro de mofo dos livros antigos. Seus lábios formigavam. Aquele beijo não tinha sido um erro; tinha sido a primeira verdade que ele experimentara em anos.
Mas a luz cegante dos faróis lá fora era o lembrete cruel de quem ele era. Lucas Ferraz, herdeiro da Santa Helena. E a mulher que descia do carro importado, protegendo o penteado impecável da garoa com uma bolsa de grife, era o seu destino traçado em contratos e acordos familiares.
Isabella.
Ele passou a mão pelo rosto, tentando recompor a máscara de indiferença que usara a vida toda. Quando a porta da frente se abriu, o caos do vento entrou junto com ela.
A Chegada da Tempestade Perfeita
— Lucas! Onde você está? Essa casa parece um túmulo! — A voz de Isabella era aguda, cortando o silêncio da fazenda como vidro quebrado.
Lucas caminhou até o hall de entrada. O gerador de emergência finalmente roncou ao longe, e algumas luzes amarelas piscaram, revelando a figura dela. Isabella era linda, objetivamente falando. Loira, alta, elegante. Mas, naquele momento, ao olhar para ela, Lucas só conseguia pensar em como ela parecia deslocada. Uma orquídea de estufa tentando sobreviver no meio do mato selvagem.
— A energia caiu com a tempestade — disse ele, a voz saindo mais rouca do que pretendia.
Ela correu até ele, os saltos estalando na madeira, e o abraçou. O cheiro dela era caro, artificial.
— Que horror! A estrada está pura lama. Quase atolei o carro duas vezes. Se o meu pai não tivesse insistido para eu vir fazer essa surpresa… — Ela se afastou um pouco, segurando o rosto dele. — Você está molhado? O que houve?
— Uma janela aberta na biblioteca. Tive que fechar — mentiu ele. Ou omitiu a parte que importava.
Isabella sorriu, alheia ao turbilhão dentro dele.
— Vá se trocar. O jantar precisa ser salvo. Trouxe vinhos. Espero que a sua empregada… como é o nome dela mesmo? Carla?
— Clara — corrigiu Lucas, sentindo um aperto no peito ao pronunciar o nome. — O nome dela é Clara.
— Isso. Espero que ela consiga preparar algo decente mesmo sem luz. Estou faminta.
Um Jantar de Vidro e Aço
Meia hora depois, Lucas desceu para a sala de jantar. Vestia uma camisa seca e calças limpas, mas sentia-se sujo. Sentou-se na cabeceira da mesa longa. Isabella estava à sua direita, falando sem parar sobre os preparativos do casamento, sobre a lista de convidados que já passava de quinhentos nomes, sobre a lua de mel em Paris.
Lucas assentía, murmurava “hm-hm”, mas seus olhos estavam fixos na porta da cozinha.
Quando a porta finalmente se abriu, o coração dele falhou uma batida. Clara entrou trazendo uma sopeira de porcelana. Ela não olhou para ele. O rosto estava impassível, os olhos baixos, focados apenas no serviço. O uniforme parecia uma armadura agora, escondendo a mulher apaixonada que tremera em seus braços há menos de uma hora.
— O cheiro está bom — comentou Isabella, sem olhar para Clara. — Sirva o vinho primeiro, por favor.
Lucas observou as mãos de Clara enquanto ela servia a taça de Isabella. Eram mãos firmes, trabalhadoras, mãos que conheciam a terra e a delicadeza. Mas, ao se aproximar dele, a garrafa tremeu ligeiramente.
Foi um movimento minúsculo. Uma gota de vinho tinto escapou e manchou a toalha de linho branco, florescendo como uma pequena ferida vermelha entre eles.
— Cuidado! — exclamou Isabella, com um tom de repreensão exagerado. — Essa toalha é de família, não é, Lucas? Deus do céu, é tão difícil prestar atenção?
Clara empalideceu.
— Perdão, senhora. Perdão, Seu Lucas. Eu vou limpar…
Lucas viu o pânico nos olhos dela. Viu a humilhação. E algo dentro dele quebrou. Aquele protocolo, aquela barreira invisível que permitia que Isabella falasse com Clara como se ela fosse inferior, tornou-se insuportável.
— Está tudo bem, Clara — a voz de Lucas soou firme, cortante, silenciando a sala. — É apenas uma toalha. Deixe. Pode servir o jantar.
Isabella olhou para ele, surpresa com a defesa repentina.
— Lucas, eu só estava dizendo que…
— Eu sei, Isabella. Mas foi um acidente. E Clara está trabalhando no escuro, sozinha, para nos servir. Acho que podemos relevar uma mancha.
Clara serviu a sopa rapidamente e saiu da sala quase correndo. Lucas não tocou na comida. O gosto do beijo tinha sido substituído por um gosto amargo de covardia. Ele a defendeu por uma mancha, mas não teve coragem de defendê-la do que realmente importava: daquela vida de servidão, daquele abismo entre eles.
O Abismo na Varanda
Mais tarde, Isabella subiu para dormir, reclamando do calor e dos mosquitos. Lucas permaneceu no andar de baixo. Ele serviu-se de uma dose generosa de uísque e foi para a varanda. A chuva havia parado, deixando para trás o cheiro de terra molhada e o canto dos grilos.
Ele olhou para a casa pequena nos fundos, onde ficavam os quartos dos funcionários. Havia uma luz de vela tremeluzindo na janela de Clara.
Ele imaginou o que ela estaria fazendo. Chorando? Rezando? Ou, pior, arrumando as malas? A ideia de Clara ir embora, de acordar amanhã e não ter o café dela, o sorriso tímido dela, a presença silenciosa que enchia a casa, causou-lhe um pânico físico.
— O que eu estou fazendo? — sussurrou ele para a noite.
Ele olhou para a aliança no dedo anelar. Ouro maciço. Pesava toneladas. Aquele anel representava a fusão das terras dos Ferraz com o capital dos Bittencourt. Era o que o pai dele queria. Era o que a cidade esperava. Era o “sucesso”.
Mas sucesso era acordar ao lado de alguém que não sabia a diferença entre um pé de café e um arbusto daninho? Sucesso era viver numa casa cheia de gente e sentir-se sozinho?
Naquela biblioteca, no escuro, ele não se sentiu sozinho. Pela primeira vez desde que voltou da capital, ele se sentiu em casa.
Ele deu um passo em direção ao jardim, os pés querendo levá-lo até a janela dela. Queria bater no vidro. Queria dizer que Isabella não significava nada além de uma obrigação antiga. Queria prometer que daria um jeito.
Mas parou.
O que ele podia oferecer a Clara agora? Um caso escondido? Torná-la a “amante do patrão”, alvo de fofocas na vila? Ela merecia mais. Ela merecia ser a dona da casa, não a segreda dos fundos. E para fazer dela a dona da casa, ele teria que destruir tudo o que foi construído por gerações. Teria que enfrentar a fúria dos Bittencourt, o escândalo, a possível falência.
Ele recuou, derrotado. Bebeu o resto do uísque num gole só, sentindo o líquido queimar a garganta.
No andar de cima, a luz do quarto de hóspedes se apagou. No fundo do quintal, a vela de Clara também se extinguiu. Lucas ficou ali, na escuridão entre os dois mundos, sabendo que a manhã seguinte traria o sol, mas não traria clareza. Apenas a certeza de que a guerra estava apenas começando. E o campo de batalha era o seu próprio coração.
Ao longe, um galo cantou fora de hora, confuso com a tempestade, assim como o homem que olhava para o vazio, desejando ter a coragem simples de amar.
Gostou da Parte 2?
A tensão está aumentando na Fazenda Santa Helena! Lucas defendeu Clara, mas recuou diante das consequências. O silêncio dele pode custar caro.
Para o próximo post: Você prefere que a história avance para:
- O Confronto: Isabella descobre algo (um bilhete, um olhar, ou pega os dois conversando) e confronta Clara?
- A Decisão de Clara: Clara, ferida e orgulhosa, decide pedir demissão e ir embora, forçando Lucas a agir desesperadamente?
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