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O Fazendeiro e Sua Administradora

Capítulo 1: Entre Ordens e Olhares

O sol ainda mal havia surgido por trás das colinas quando a fazenda Monte Sereno já respirava movimento. O cheiro de terra úmida, misturado ao aroma forte do café recém-passado, invade o ar como um convite silencioso para mais um dia de trabalho duro. Ali, nada era leve — tudo projetado força, disciplina e presença.

E ninguém representava melhor isso do que Augusto Ferraz.

Alto, de postura firme e olhar penetrante, ele caminhava pelo terreiro com passos decididos. A camisa de algodão já estava parcialmente aberta no peito, revelando a pele bronzeada pelo sol constante. As mãos grandes, calejadas, denunciavam que ele não era apenas o dono — era o homem que colocava a mão na terra, que comandava, mas também fazia.

— Esse gado não pode ficar solto desse jeito! — sua voz ecoou forte, fazendo dois peões se apressarem. — Organização aqui não é favor, é obrigação.

Augusto não levantou a voz à toa. Quando conheci, era porque algo estava errado. E quase sempre estava, aos olhos dele.

Mas naquele dia, algo novo estava a mexer com sua rotina perfeitamente controlada.

Uma caminhonete branca entrou pela estrada de terra, levantando poeira. Augusto estreitou os olhos, incomodado com a interrupção inesperada. Ele não gosta de surpresas. Muito menos de visitas sem aviso.

O veículo parou em frente à casa principal.

A porta se.

E foi ali que tudo mudou.

Ela desceu com calma, ajeitando a bolsa no ombro. Usava uma calça jeans bem ajustada, botas discretas e uma camisa clara, simples — mas que, de alguma forma, parecia sofisticada demais para aquele cenário bruto. Os cabelos presos em um rabo de cavalo destacavam o rosto firme, de traços delicados, mas com uma expressão decidida.

Augusto ficou imóvel por um segundo.

Aquilo não era comum.

— Bom dia — ela disse, caminha em sua direção com segurança. — O senhor deve ser o Augusto Ferraz.

A voz dela era suave, mas firme. Não tremia. Não hesite.

Ele cruzou os braços, analisando-a de cima para baixo, sem disfarçar.

— Depende de quem quer saber.

Ela sustentou o olhar. Não abaixou. Não se intimidou.

—Helena Duarte. Administradora. Fui contratado pelo seu sócio para reorganizar a gestão da fazenda.

Silêncio.

O vento passava entre eles, levantando levemente a poeira do chão.

Augusto deu um passo à frente.

— Eu não pedi administradora nenhuma.

— Eu sei — ela respondeu, direta. — Mas ele pediu.

Aquilo o irritou mais do que deveria.

— Aqui quem manda sou eu.

— Então vai continuar mandando — disse Helena, sem alterar o tom. — Só que com números, planejamento e menos prejuízo.

As pessoas ao redor fingiam trabalhar, mas estavam atentos. Aquela conversa já tinha um clima diferente. Tenso. Elétrico.

Augusto mudou ainda mais, invadindo o espaço dela de propósito.

— Você acha mesmo que entende mais dessa terra do que eu?

Helena levemente o queixo.

— Não. Mas entendo do que está fazendo você perder dinheiro nela.

Aquilo foi um golpe.

Ele travou o maxilar.

Ela não era tão quente. Era perigo.

Augusto desviou o olhar por um segundo, respirando fundo, tentando manter o controle. Aquela mulher não podia entrar ali e simplesmente virar tudo de cabeça para baixo.

Mas já estava fazendo isso.

— Você tem uma semana — ele disse, por fim. — Se eu não gosto, você vai embora.

Helena de canto.

Não era um sorriso doce. Era provocador.

— Uma semana é mais do que suficiente.

Ela passou por ele sem pedir licença, subindo os degraus da casa como se já conhecesse o lugar.

Augusto ficou parado, observando.

Algo nele… não estava confortável.

Mas também não estava disposto a recuar.

Horas depois, a fazenda já parecia outra.

Helena caminhava com uma prancheta na mão, conversando com os funcionários, anotando, questionando, reorganizando tarefas. Não levanteva a voz. Não preciso. Havia uma autoridade natural nela que impunha respeito.

E isso incomodava Augusto.

Muito.

Ele a observava de longe, encostado na cerca, com os braços cruzados.

— Ela não tem medo do senhor, não — comentou um dos peões, em tom baixo.

Augusto soltou um riso curto.

— Ainda.

Mas no fundo, ele sabia: não era medo o que ela sentia.

Era confronto.

É aquilo mexia com ele de um jeito estranho.

No fim da tarde, o céu começou a ganhar toneladas alaranjadas. Helena estava próxima ao celeiro, revisando algumas anotações, quando seguiu atrás dos passos dela.

Ela não virou imediatamente.

— Veio fiscalizar? — Perguntei, sem olhar.

— Vim ver até onde vai essa sua coragem — respondeu Augusto.

Ela se virou então.

Os dois ficaram frente a frente, agora sem pressa do dia.

O silêncio entre eles era diferente.

Mais denso.

Mais… carregado.

— Eu não sou sua inimiga — disse Helena.

— Ainda não — ele respondeu.

Ela deu um pequeno suspiro.

— Você construiu tudo isso aqui. Dá pra ver. Mas tá perdendo o controle de coisas que não precisa perder.

Augusto inclinou a cabeça.

— E você acha que consegue resolver?

— Eu não acho. Eu sei.

Ele deu um passo mais perto.

— Gosto de gente.

— E eu não gosto de gente que manda demais e escuta de menos.

Aquilo quase é como um desafio.

Era E.

Os olhos deles se prenderam.

Por um instante… ninguém disse nada.

O vento soprou mais forte, bagunçando alguns fios soltos do cabelo dela.

Augusto, quase sem perceber, falou a mão.

Mas parou no meio do caminho.

Helena notou.

E não se separa.

O clima entre eles mudou.

Não era mais só discussão.

Era tensão.

Era atração.

Perigosa.

— Você deve tomar cuidado — ele disse, em voz mais baixa.

— Com o quê?

— Comigo.

Ela sustentou o olhar.

— Eu não me assuto fácil.

Ele de leve.

Mas não era um sorriso qualquer.

Era aqueles que prometiam problema.

— Isso a gente vai descobrir.

Helena virou de costas antes que aquilo fosse longe demais.

Mas o coração dela… não estava mais tão calmo.

E Augusto?

Ele ficou ali, parado, olhando enquanto ela se afastava.

Sabendo que aquela mulher não era só uma mudança na fazenda.

Era uma tempestade.

E ela tinha acabado de chegar.

Naquela noite, enquanto o silêncio tomava conta do Monte Sereno, duas certezas já estavam plantadas:

Helena não iria embora fácil.

E Augusto… não sairia ileso.

O que nenhum dos dois sabia ainda…

Era o quanto aquela história estava prestes a incendiar tudo.

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