Helena mal conseguiu dormir naquela noite.
A carta estava sobre a mesa da cozinha.
Ela já havia lido aquelas palavras dezenas de vezes.
“Vocês ainda não sabem a verdade sobre o que aconteceu há vinte e cinco anos.”
Quem teria enviado aquilo?
E por quê?
O relógio marcava quase duas da manhã quando ela ouviu um barulho vindo da sala.
Levantou-se silenciosamente.
Marcos estava sentado no sofá.
Sozinho.
Com uma caixa antiga nas mãos.
Ele parecia derrotado.
— O que é isso? — perguntou Helena.
Marcos demorou a responder.
Passou a mão sobre a tampa da caixa.
Como alguém que tem medo do que vai encontrar.
— Eu esperava nunca precisar abrir isso novamente.
Helena sentou-se ao lado dele.
Pela primeira vez em semanas, o clima entre os dois não era de discussão.
Era de medo.
Marcos abriu a caixa.
Dentro havia fotografias antigas.
Cartas amareladas.
Recortes de jornais.
E uma pequena corrente de prata.
Helena observou tudo em silêncio.
Até que uma fotografia chamou sua atenção.
Era uma imagem antiga.
Quatro pessoas apareciam sorrindo.
Dois homens.
Duas mulheres.
Pareciam amigos.
Talvez uma família.
Mas algo fez Helena prender a respiração.
Uma das mulheres era extremamente parecida com a menina da certidão de nascimento.
Os mesmos olhos.
O mesmo sorriso.
— Quem é ela? — perguntou.
Marcos empalideceu.
— O nome dela era Carolina.
— Era?
— Ela morreu há muitos anos.
Helena sentiu um arrepio.
— O que isso tem a ver com a carta?
Marcos respirou fundo.
— Tudo.
O silêncio dominou a sala.
Então ele começou a contar.
Vinte e cinco anos antes, quando ainda era muito jovem, ele e alguns amigos haviam se envolvido em um acontecimento que mudou suas vidas.
Uma noite.
Um acidente.
Uma decisão errada.
E um segredo que todos prometeram levar para o túmulo.
— Que segredo? — perguntou Helena.
Marcos desviou os olhos.
— Eu não posso contar tudo.
— Depois de tudo que aconteceu, você ainda está escondendo coisas?
Ele fechou os olhos.
— Estou tentando proteger alguém.
As palavras fizeram Helena sentir um frio no estômago.
Proteger quem?
Antes que pudesse insistir, algo chamou sua atenção.
Atrás da fotografia havia uma anotação escrita à mão.
Ela virou a foto.
E leu.
“Se alguma coisa acontecer comigo, procure Ana.”
Helena levantou os olhos.
— Quem é Ana?
Marcos ficou imóvel.
Pela expressão dele, aquela pergunta havia atingido um ponto sensível.
Muito sensível.
— Ana desapareceu.
— Desapareceu?
— Ninguém a viu nos últimos vinte e três anos.
O coração de Helena acelerou.
A mulher da fotografia.
A carta anônima.
O segredo de vinte e cinco anos.
Tudo parecia conectado.
Mas de uma forma que ela ainda não compreendia.
Então o celular dela vibrou.
Uma mensagem.
Número desconhecido.
As mãos começaram a tremer.
Ela abriu.
Apenas uma frase apareceu na tela.
“Pergunte ao Marcos o que realmente aconteceu na noite do lago.”
Helena sentiu o sangue gelar.
Ergueu lentamente o celular.
E mostrou a mensagem para o marido.
O rosto dele perdeu completamente a cor.
Porque aquela era uma pergunta que ele vinha tentando evitar há vinte e cinco anos.
Continua…

