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Aquele Homem Não Deveria Me Olhar Assim

Capítulo 1 — O Segredo Começa no Silêncio

O primeiro erro foi aceitar a carona.

Eu sabia disso no exato momento em que ele encostou o carro ao meu lado, o vidro desceu lentamente, como se aquele gesto tivesse sido ensaiado. A chuva caiu a fina, insistente, transformando a rua em um espelho turvo de luzes tremidas.

— Entra — ele disse, com uma calma que não combinava com a noite.

Não foi um convite. Foi quase uma ordem.

Eu hesitei.

Meu instinto gritava para recuar. Mas havia algo nele… algo que não se explicava. Não era beleza — embora ele fosse. Não era charme — embora tivesse. Era outra coisa. Algo mais perigoso.

Algo que puxava.

— Eu posso ir a pé — respondi, tentando manter a voz firme.

Ele se inclinou levemente a cabeça, me analisando como se já soubesse exatamente o que eu faria a seguir.

— Pode — disse ele. — Mas não vai.

O silêncio que veio depois foi pesado. Incômodo. Como se o mundo tivesse parado só para ver qual decisão eu tomaria.

E então, contra tudo o que faz sentido…

Eu abri a porta e entrei.

O cheiro do carro era estranho. Não é ruim. Mas… intenso. Uma mistura de couro, algo amadeirado e um leve toque metálico que eu não consegui identificar. Fechei a porta devagar, sentindo o coração bater mais rápido do que deveria.

Ele não disse nada. Apenas voltei a dirigir.

A cidade passando lá fora, borrada pela chuva e pelo vidro molhado. Eu tentei fingir normalidade, mas meu corpo inteiro estava em alerta. Cada movimento dele parecia calculado. Cada respiração, controlada.

— Você sempre entra no carro de desconhecidos? — ele perguntou, sem tirar os olhos da estrada.

— Você sempre oferece carona assim… do nada?

Um leve sorriso surgiu no canto da boca dele.

— Só quando vale a pena.

Meu estômago revirou.

Aquilo não era flerta comum. Havia uma camada ali que eu não conseguia acessar. Como se ele estivesse sempre alguns passos à frente.

— Qual o seu nome? —quere.

Ele demorou alguns segundos antes de responder.

— Você prefere saber agora… ou depois?

Franzi a testa.

— Isso não faz sentido.

— Faz — ele disse finalmente, olhando para mim.

E foi nesse momento que tudo mudou.

Os olhos dele não eram apenas escuros. Eram profundos. Intensos de um jeito que me fez esquecer por um segundo como respirar. Não era um olhar comum. Era como se ele estivesse me lendo… desmontando… entendendo coisas que eu mesma ainda não tinha coragem de encarar.

Desviei o olhar primeiro.

Erro número dois.

— Me deixa aqui na próxima esquina — falei, rápido demais.

— Ainda não.

— Eu não disse onde eu moro.

— Eu sei.

O silêncio.

Mais pesado. Mais perigoso.

Meu coração acelerou de um jeito desconfortável. Aquilo não era coincidente. Não poderia ser.

— Como você sabe?

Ele não respondeu.

Apenas transporte contínuo.

As mãos firmes no volante. Uma expressão calma demais. Como se aquilo — toda aquela situação estranha — fosse completamente normal para ele.

— Eu não gosto desse tipo de brincadeira — falei, tentando recuperar algum controle.

— Não é brincadeira.

A resposta veio seca.

Direta.

Final.

Engoli em seco.

— então me explica.

Ele soltou um leve suspiro, como se estivesse decidindo algo internamente.

— Ainda não.

Aquilo me irritou.

— Olha, isso já passou do limite. Para o carro.

Ele não pariu.

— Eu disse para parar o carro!

Dessa vez, ele virou o rosto completamente para mim.

E o que eu vi ali…

Não era bloqueio.

Não era frieza.

Era… conflito.

Como se ele estivesse lutando contra alguma coisa dentro dele.

— Se eu parar agora — ele disse, com a voz mais baixa — você vai descer… e nunca mais vai voltar.

— Claro que vou!

— E mesmo assim — ele contínuo — você vai querer saber.

Meu peito aberto.

Porque ele estava certo.

Droga.

Ele estava certo.

— Saber o quê?

Ele voltou a olhar para frente.

— Por que eu já sei quem você é.

Um arrepio percorre minha espinha inteira.

— Isso não tem graça.

— Eu não estou brincando com você.

— logo fala!

O carro diminuiu a velocidade.

Ele camburou.

Mas não era uma esquina qualquer.

Era a minha rua.

Minha respiração falhou.

— Como… — comecei, mas as palavras simplesmente não saíram.

Ele desligou o carro.

O som da chuva agora parecia mais alto. Mais presente. Como se estivesse isolando a gente do resto do mundo.

— Você mora aqui — ele disse, simples.

— Eu nunca te vi antes.

— Eu sei.

— Então isso é impossível.

Ele virou o corpo levemente na minha direção.

E, pela primeira vez, senti medo da verdade.

— Nada disso é impossível.

Minha mão tremia levemente sobre o colo.

— Você está me seguindo?

— Não.

— tão como—

— Porque você também já me viu.

Meu coração disparou.

— Não. Eu lembrava.

—Herria?

Ele arqueou levemente a sobrancelha, como se aquilo fosse uma provocação.

— Ou você acha que lembra de tudo?

Fiquei em silêncio.

Minha cabeça tentou organizar as informações, mas nada fazia sentido.

— Eu não sei quem você é — falei, mais baixo agora.

Ele me lembrou por alguns segundos.

Longos demais.

— Ainda não.

A forma como ele disse aquilo…

Não parece dúvida.

com certeza.

— Isso é doentio — murmurei, abrindo a porta.

— Espera.

A voz dele mudou.

Mais urgente.

Mais… humana.

Parei.

Contra a minha própria vontade.

— Não entre em casa agora.

Virei devagar.

— O quê?

— Só… não entra.

Um frio estranho percorreu meu corpo.

— Por quê?

Ele passou a mão no cabelo, visivelmente tenso pela primeira vez.

— Porque, se você entrar… as coisas vão acontecer mais rápido do que deveriam.

Aquilo não faz sentido nenhum.

Mas, de algum jeito…

(real)

— Você está me assustando.

— Eu sei.

— então para com isso!

— Eu não posso.

A resposta veio quase como uma sugestão.

E foi aí que eu percebi.

Ele não estava jogando.

Ele estava… preocupado.

— Me diz o que está acontecendo — pedi, sentindo a voz falhar.

Ele fechou os olhos por um breve segundo.

Como se estivesse decidindo até onde poderia ir.

Quando bei novamente…

Havia algo diferente ali.

Algo mais intenso.

Mais perigoso.

— Se eu te contar — ele disse — você não vai conseguir voltar atrás.

Meu coração martelava no peito.

— Voltar do quê?

Ele se inclinou levemente na minha direção.

Perto demais.

Quente demais.

Perigoso demais.

— De mim.

O mundo pareceu parar.

Minha respiração travou.

— Isso é algum tipo de ameaça?

— Não.

— ?

Ele sustentou meu olhar.

Sem desvio.

Sem hesitar.

— Um aviso.

O silêncio que veio depois foi ensurdecedor.

Eu sabia que deveria sair.

Correr.

Fechar aquela porta e nunca mais olhar para trás.

Mas eu não me mexi.

Porque, no fundo…

Eu já estava presa.

— Qual é o seu nome? — quis, quase em uma sugestão.

Ele demorou.

Como se aquele fosse o limite.

Como se, depois disso…

Não elas mais volta.

Então, finalmente, respondi:

— Você já chamou ele uma vez.

Meu corpo inteiro gelou.

— Isso não é possível…

Ele apenas abriu a porta do carro.

— Vai.

Eu não consegui discutir.

Sai.

As pernas estranhamente folhas.

Ou pesadas demais.

Não sei.

Quando indicado para trás…

O carro já estava indo embora.

Sem barulho.

Sem despedida.

Sem explicação.

Fiquei parado na frente da minha casa, com a chuva caindo sobre mim, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.

Mas havia uma coisa que eu não conseguia ignorar.

Uma.

Um nome.

Algo enterrado na minha memória…

Tentando voltar.

E, instante…

Eu soube.

Aquilo não tinha acabado.

Aquilo só tinha começado.

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