Capítulo 2 — O Nome Que Não Deveria Existir
Eu não dormi.
Não de verdade.
Meu corpo até deitou, os olhos chegaram a fechar… mas minha mente não parou uma segunda volta.
Uma chuva contínua durante uma madrugada inteira, como se o mundo lá fora estivesse querendo abafar o que tinha acontecido. Mas dentro de mim, tudo só fazia mais barulho.
“Você já chamou ele uma vez.”
Aquela frase não saiu da minha cabeça.
Eu revirei a cama.
Levantei.
Bebi água.
Voltei.
Nada adiantava.
Porque não era só curiosidade.
Era uma sensação estranha… quase física.
Como se alguma coisa dentro de mim estivesse tentando lembrar — mas alguém teve trancado essa lembrança.
E eu estava começando a forçar essa porta.
Erro.
Eu levantei de vez quando o relógio marcava 3h17.
Não aguentei mais.
Fui até a sala, peguei o celular e fiquei olhando para a tela vazia, tentando entender por que meu coração ainda estava atualizado daquele jeito.
Foi quando.
Uma notificação.
Número desconhecido.
Meu corpo inteiro gelou antes mesmo de eu abrir.
Mensagem:
“Você entrou em casa.”
Minha respiração falhou.
Não.
Não.
Não.
Meus dedos tremeram.
“Como você sabe disso?” — respondi na hora, sem pensar.
Os três pontinhos apareceram imediatamente.
Como se ele estivesse esperando.
“Eu pedi para você não entrar.”
Meus pés juntos.
“Você está me observando?”
Dessa vez, demorou alguns segundos.
Longos.
Pesados.
que a resposta disse:
“Se eu estivesse… você não estaria calmo assim.”
Aquilo não ajudou.
Nada.
Pelo contrário.
Eu olhei automaticamente para a janela.
Fechada.
Trancada.
Mas, ainda assim…
A sensação de estar sendo observado aumentou.
— Para — murmurei para mim mesma, passando a mão no rosto. — Isso não faz sentido.
O celular vibrou de novo.
“Você começou a lembrar, não foi?”
Meu coração disparou.
“Lembrar do quê?”
Silêncio.
Nenhuma resposta.
— Droga!
Joguei o celular no sofá e comecei a andar de um lado para o outro.
Aquilo estava indo longe demais.
Muito além de um encontro estranho.
Muito além de um homem misterioso.
Aquilo era… invasivo.
Perigoso.
Mas, mesmo assim…
Eu não sou um médico.
Voltei correndo para o celular.
“Você vai me responder ou não?”
Dessa vez, a resposta demorou mais.
E quando…
Não era o que eu esperava.
“Abre a porta.”
Meu corpo inteiro travou.
Um frio subiu pela minha espinha.
Devagar.
Pesado.
— Não…
Olhei para a porta.
Fechada.
Silenciosa.
Mas agora…
diferente.
Como se tivesse algo do outro lado.
Como se ele estivesse ali.
Meu coração começou a bater tão forte que eu consegui sentir no pescoço.
“Isso não tem graça.” — digitei.
Uma resposta escorregadia.
“Eu não estou brincando com você.”
O ar pareceu faltar.
Fiquei parada.
Imóvel.
Tentando decidir o que fazer.
A coisa mais sensata seria ignorar.
Voltar para o quarto.
Trancar tudo.
Mas…
E se ele estivesse mesmo ali?
E se aquilo não fosse um jogo?
E se—
Um tocou.
Eu quase gritei.
O som ecológicoou pela casa inteira, alto demais, invasivo demais.
Fiquei paralisada.
— Não abre… — sussurrei para mim mesma.
A mas tocou de novo.
Mais longa.
Mais insistente.
Meu corpo começou a agir sozinho.
Passo.
Mais um.
E outro.
Até eu estar parado diante da porta.
Minha mão tremia quando toquei na maçaneta.
— Isso é loucura… — murmurei.
Mas eu abri.
Devagar.
Muito devagar.
E ele estava ali.
Sem guarda-chuva.
Sem pressa.
Com a mesma expressão calma de antes.
Como se aquilo fosse realizado.
Como se ele soubesse que eu abriria.
— Eu disse para você não entrar — ele falou, olhando direto para mim.
A chuva escorria pelo rosto dele, mas ele nem parecia sentir.
— Como você conseguiu meu número? — foi a primeira coisa que consegui dizer.
Ele não respondeu.
Apenas me observou.
De novo aquele olhar.
Profundo.
Intenso.
Errado.
— Você não deve ter vindo aqui — continuei, tentando manter alguma firmeza.
— Eu não vim por mim.
Franzi a testa.
— acreditou por quê?
Ele deu um passo à frente.
Meu corpo reagiu imediatamente.
Recuou.
Mas não o suficiente.
Nunca era suficiente.
— Porque agora você está envolvido — ele disse, baixo.
— Envolvida em quê?
Silêncio.
Ele olhou para dentro da casa, como se estivesse avaliando algo.
— Eu posso entrar?
— Não.
A resposta saiu automaticamente.
Ele assentiu levemente.
Como se já esperasse.
— Então ouça bem.
Minha respiração ficou presa.
— A partir de agora… você vai começar a lembrar de coisas que não fazem sentido.
Meu coração disparou.
— Isso já está acontecendo — murmurei, sem perceber.
Ele fechou os olhos por um segundo.
Como se aquilo confirmasse algo.
— Eu sabia.
— Sabia o quê?
Ele voltou a me encarar.
Mais sério.
Mais intenso.
— Que já era tarde demais.
O mundo pareceu inclinar.
— Tarde pra quê?
Ele se mudou mais um pouco.
Perto demais.
Meu corpo inteiro entrou em alerta.
— Pra você esquecer de mim.
Minha mente travou.
— Eu nunca lembrei de você.
— Lembrou.
A resposta veio firme.
Sem dúvida.
— Quando?
Ele hesitou.
Pela primeira vez.
— Não sei o que você acha.
— ?
Silêncio.
Pesado.
Carregado.
que ele disse:
— Você chamou meu nome… no dia em que tudo aconteceu.
Meu coração pariu.
— Que dia?
Ele sustentou meu olhar.
E, lentamente…
Falou:
— O dia em que você quase morreu.
O ar sumiu.
Literalmente.
Minhas pernas falharam.
Seguro na porta para não cair.
— Isso… isso não aconteceu.
voz saiu fraca.
Quase irreconhec.
— levantar.
— Não — balancei a cabeça — eu lembraria disso!
— Não se lembre.
Ele disse isso com uma calma assustadora.
— Porque alguém fez você esquecer.
O silêncio que caiu entre nós foi pesado.
Denso.
Irreal.
— Isso é impossível… — sussurrei.
— Não é.
Ele se inclinou.
Os olhos cravados nos meus.
— E o pior ainda não começou.
Um arrepio violento percorreu meu corpo.
— Pior?
Ele assentiu.
— Quando você lembrar… eles também vão saber.
Meu coração disparou de novo.
— Eles quem?
Ele não respondeu.
Apenas deu um passo para trás.
— Eu volto.
— Espera! — falei, desesperada. — Você não pode simplesmente—
— Posso.
A forma como ele disse isso…
Não deixou espaço para discussão.
— Qual é o seu nome? — quis de novo, quase implorando.
Ele me encarou.
E dessa vez…
Houve algo diferente.
Algo mais suave.
Quase… doloroso.
— Você já sabe.
— Eu não sei!
Ele deu um meio sorriso.
Triste.
— Sabe sim.
E então virou as costas.
Caminhou sob a chuva.
Sem olhar para trás.
Sem hesitar.
Sem parar.
Eu. ali.
Parada na porta.
Sem conseguir me mover.
Sem conseguir respirar direito.
Com uma única frase ecoando na minha cabeça…
“O dia em que você quase morreu.”
E, pela primeira vez…
Uma imagem surgiu.
Rápida.
Confusa.
Mas real.
Água.
Escuridão.
E uma voz.
A mesma voz.
Chamando meu nome.
Ou…
Eus o dele.
E um instante…
Eu soube.
O problema não era ele saber quem eu era.
O problema…
Era eu estar começando a lembrar quem ele sempre foi.

