Capítulo Final — O Que a Gente Escolhe Quando Não Pode Voltar
O carro parou bruscamente.
Não porque fomos cercados.
Mas porque eu mandei parar .
— Aqui.
Lucas virou o rosto, tenso.
— Tem certeza?
Eu olhei para o prédio à frente.
Frio.
Branco.
Familiar demais.
Meu peito aberto.
— Foi aqui.
O silêncio caiu entre nós.
Pesado.
Cheio de tudo o que já aconteceu… e do que ainda estava por vir.
— Eles estão esperando — ele disse.
— Eu sei.
— Isso pode acabar mal.
Eu soltei o cinto devagar.
— Já acabou mal.
Ele segurou meu braço.
Firme.
— Não brinque com isso.
Eu olhei pra mão dele.
Depois, pra ele.
E pela primeira vez…
Sem medo.
— Eu não tô brincando.
Silêncio.
E então ele entendeu.
Soltou.
— Então a gente entra junto.
Meu coração apertou.
— Sempre.
O prédio estava exatamente como na minha memória.
Luzes frias.
Corredores vazios.
Silêncio artificial.
Mas agora…
Eu não era mais a mesma.
Cada passo ecoava mais forte.
Mais firme.
Mais decidido.
— Você lembra do caminho? — ele disse, baixo.
— Lembro.
E lembrava mesmo.
Cada curva.
Cada porta.
Cada erro.
— Sala de controle fica no final — falei.
— E depois disso?
Eu parei.
Olhei pra frente.
— Depois disso… não tem mais depois.
O som de passos interrompeu o silêncio.
— Eles já sabem que estamos aqui — Lucas murmurou.
— Ótimo.
Ele me invadiu.
— Ótimo?
Eu respirei fundo.
— Chega de correr.
Os octo.
Dois.
Depois mais dois.
Olhos frios.
Sem expressão.
— Vocês não devem ter tido carreiras — um deles disse.
Minha mandíbula travou.
— Vocês também não devem existir.
Lucas deu um passo à frente.
Instintivo.
— Fica atrás de mim.
— Não.
Minha resposta saiu firme.
— Dessa vez, não.
O homem de lado.
— Ela lembra.
Meu corpo inteiro ficou em alerta.
— Lembro o suficiente.
— Então sabe que isso não termina bem.
— Pra vocês, não termine mesmo.
Silêncio.
Pesado.
Carregado.
— Última chance — ele disse. —Vão embora.
Eu ri.
Sem humor.
— Vocês tiveram a de vocês… quando apagaram minha vida.
O olhar dele mudou.
— Foi necessário.
— Não foi.
Minha voz subiu.
— Você escolhe quem lembrar. Quem esquece. Quem viver. Quem morrer!
— Controle é jovem.
— Não.
Eu dei um passo à frente.
— Controle é medo disfarçado.
O silêncio ficou denso.
— Você não entende — ele disse.
— Eu entendo perfeitamente.
Minha respiração ficou pesada.
Mas firme.
— Eu vi.
E isso foi o suficiente.
Eles foram.
Tudo aconteceu rápido.
Movimento.
Impacto.
Lucas reagiu primeiro.
Sempre.
Ele me afastou, desviando de um deles.
Eu ouvi o som de algo caindo.
Gritos.
Luta.
Mas dessa vez…
Eu não congelei.
Eu não fugi.
Eu reagi.
Como se meu corpo lembrasse antes da minha mente.
Como se eu já tivesse feito aquilo.
— Atrás! — Lucas.
Eu me virei.
Desviei.
Empurrei.
Tudo automático.
Tudo intenso.
Tudo real.
— A sala! — eles.
Eu.
Uma porta.
Logo ali.
— Vai! — ele disse.
— E você?!
— Eu seguro!
Meu coração apertou.
— Eu não vou te eles!
— Vai!
Os olhos dele encontraram os meus.
E um instante…
Eu entendi.
Era igual antes.
A mesma escolha.
O mesmo risco.
O mesmo nós.
— Não dessa vez — falei.
E eu ele.
Juntos.
Entramos na sala.
A porta bateu para trás.
Silêncio.
Máquinas.
Luzes.
Painéis.
Tudo ali.
Tudo real.
— É isso — eu sussurrei.
Lucas respirou fundo.
— Você sabe o que fazer?
Eu caminhei até o sistema.
Como as páginas tremiam.
Mas não de medo.
De peso.
— Se eu desligar isso…
— Acaba.
— Tudo.
Ele se.
— Inclusive qualquer chance de voltar atrás.
Eu ri, fraca.
— Você ainda não entendeu?
Olhei pra ele.
— Eu não quero voltar.
O silêncio ficou leve.
Pela primeira vez.
— então faz.
Minhas mãos emparelharam sobre o painel.
E, por um segundo…
Eu ·.
Na vida que eu não me lembrava.
Nas memórias que roubaram.
Nas versões de mim que nunca existiram.
E então…
Eu.
Tudo.
O sistema apagou.
Como oscilaram.
E o silêncio que veio depois…
Foi diferente.
Livre.
Mas curto.
Porque logo em seguida…
A porta foi arrombada.
Eles.
Mais.
Muito mais.
— Vocês não tinham esse direito! — alguém conhecido.
Lucas se posicionou na minha frente.
De novo.
Sempre.
— Eu escolhi isso — eu.
A voz firme.
Alta.
Clara.
— E ninguém mais vai escolher por mim.
Silêncio.
Tensão.
E então…
Eles pararam.
Confusão.
Desorganização.
Algo tinha mudado.
— O sistema… — um deles murmurou.
— Acabou — eu disse.
O olhar deles mudou.
Não era mais controle.
Era do caos.
— Isso não vai ficar assim — ele disse.
Eu dei um passo à frente.
Sem medo.
— Vai sim.
E pela primeira vez…
Eles recuaram.
Não porque proibido.
Mas porque.
O silêncio lá fora parecia outro mundo.
A chuva tinha parado.
O ar estava mais leve.
Eu respirei fundo.
Como se fosse a primeira vez.
Lucas estava ao meu lado.
Quieto.
Mas presente.
— E agora? — ele disse.
Eu olhei pra frente.
Depois pra ele.
— Agora… a gente vive.
Ele ficou em silêncio.
Por um segundo.
Dois.
— Mesmo sem saber tudo?
Eu sorrio de leve.
— A gente descobre junto.
O olhar dele suavizou.
— Você tem certeza?
Eu me aproximei.
Sem medo.
Sem dúvida.
— Eu já escolhi você duas vezes.
Meu coração bateu mais forte.
— Não vou errar agora.
Ele encostou a testa na minha.
Respiração calma.
Presente.
— Eu não vou te deixar esquecer de novo.
Eus primeiros os pondo.
— Nem eu.
E, dessa vez…
Quando ele mehiu…
Não havia perigo.
Não havia fuga.
Só escolha.
E pela primeira vez…
Era suficiente.
fim…

