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Desejo Proibido

Capítulo 2 – Entre a Razão e o Coração

Clara jamais imaginou que um simples olhar pudesse permanecer tanto tempo em sua memória.

Havia se passado uma semana desde a noite da chuva, mas a imagem de Henrique segurando o guarda-chuva preto e oferecendo ajuda ainda surgia em seus pensamentos durante os ensaios, no caminho para casa e até mesmo nos momentos em que tentava dormir.

Ela não sabia explicar.

Não era apenas curiosidade.

Era como se aquele homem carregasse um universo inteiro escondido atrás do silêncio.

Na segunda-feira, chegou ao Teatro Imperial ainda mais cedo do que de costume.

Gostava de aproveitar o palco vazio.

O silêncio permitia que ouvisse apenas a própria respiração e o leve atrito das sapatilhas contra o piso de madeira.

Enquanto iniciava os alongamentos, percebeu que alguém afinava o piano.

O velho maestro Augusto sorriu ao vê-la.

— Sempre a primeira.

— É quando consigo ouvir meus pensamentos.

O músico riu.

— Às vezes isso é bom.

Às vezes nem tanto.

Clara sorriu sem responder.

Na verdade, seus pensamentos tinham um nome.

Henrique.

O ensaio daquela manhã foi particularmente exigente.

A professora Helena insistia que a apresentação de gala precisava ser perfeita.

Cada erro era corrigido imediatamente.

Cada movimento precisava transmitir emoção.

— A dança começa muito antes do primeiro passo — dizia ela. — O público precisa acreditar que vocês sentem aquilo que estão interpretando.

Clara absorvia cada palavra.

Quando a música terminou, as bailarinas fizeram uma pausa para descansar.

Marina aproximou-se dela.

— Você reparou que ele continua vindo todos os dias?

— Quem?

Marina arqueou uma sobrancelha.

— Não finge. O homem do camarote.

Clara desviou o olhar.

— Talvez goste de balé.

— Ninguém gosta tanto assim.

As duas riram.

Foi então que o diretor administrativo entrou na sala.

— Clara?

Ela levantou a mão.

— Sim?

— A senhora Helena pediu que você levasse estes documentos para o escritório do proprietário do teatro.

— Agora?

— Sim.

Ela pegou a pasta sem imaginar que aquele pequeno favor mudaria completamente sua manhã.

Nunca havia entrado naquela parte do prédio.

O corredor era silencioso.

As paredes exibiam fotografias antigas de grandes espetáculos.

No final, uma porta de madeira escura trazia apenas uma pequena placa de bronze.

“Presidência.”

Clara respirou fundo e bateu delicadamente.

— Entre.

Ao abrir a porta, ficou surpresa.

Henrique levantou os olhos do documento que lia.

Por um instante, os dois permaneceram imóveis.

— Você?

A palavra escapou dos lábios de Clara antes que pudesse evitá-la.

Henrique levantou-se.

— Bom dia.

Ela entrou devagar.

— Desculpe… eu não sabia…

Ele sorriu discretamente.

— Que eu era o proprietário do teatro?

Clara apenas confirmou com a cabeça.

Sentiu o rosto corar.

Agora compreendia por que todos o tratavam com tanto respeito.

Entregou a pasta.

— A professora pediu que eu trouxesse isto.

Henrique recebeu os documentos.

— Obrigado.

O silêncio voltou a ocupar a sala.

Pela enorme janela, a luz da manhã iluminava estantes repletas de livros, quadros antigos e fotografias de espetáculos que pareciam guardar décadas de história.

Clara observou uma fotografia emoldurada.

Nela, uma bailarina sorria usando um vestido branco.

Henrique percebeu.

— Minha esposa.

Ela voltou-se imediatamente para ele.

— Desculpe… eu não queria…

— Tudo bem.

Sua voz permaneceu tranquila.

— Ela amava este teatro mais do que qualquer outro lugar.

Foi por ela que decidi preservá-lo.

Clara aproximou-se da fotografia.

A mulher transmitia uma alegria serena.

— Ela era linda.

Henrique sorriu pela primeira vez de maneira verdadeira.

— Era.

O silêncio daquela resposta dizia muito mais do que qualquer explicação.

Clara compreendeu que havia uma saudade que nunca desapareceria completamente.

Antes de sair, ela olhou novamente para Henrique.

— Obrigada por manter este lugar vivo.

Ele respondeu apenas com um leve movimento de cabeça.

Quando ela fechou a porta, Henrique permaneceu alguns segundos olhando para o espaço vazio.

Sentia que aquela conversa, por mais breve que tivesse sido, tornara ainda mais difícil ignorar o que acontecia em seu coração.

Naquela tarde, a chuva voltou.

Os ensaios terminaram mais cedo.

Ao sair do teatro, Clara percebeu que havia esquecido novamente o guarda-chuva.

Sorriu sozinha.

— Estou ficando distraída.

— Acho que isso está se tornando um hábito.

Ela reconheceu imediatamente aquela voz.

Henrique aproximava-se segurando outro guarda-chuva.

Os dois riram discretamente.

— Desta vez aceito apenas dividir o caminho até o ponto de ônibus — disse ela.

— Parece um acordo justo.

Caminharam lado a lado.

Nenhum dos dois tinha pressa.

As ruas estavam quase vazias.

O som da chuva preenchia os espaços onde faltavam palavras.

Henrique quebrou o silêncio.

— Há quanto tempo você dança?

— Desde os sete anos.

— Nunca pensou em desistir?

Ela sorriu.

— Muitas vezes.

— E por que não desistiu?

Clara olhou para o céu.

— Porque quando danço sinto que encontro a melhor versão de mim mesma.

Henrique permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Minha esposa dizia exatamente isso.

Ela voltou o olhar para ele.

— Ela era bailarina?

— Sim.

Foi assim que nos conhecemos.

Clara percebeu que, pela primeira vez, Henrique falava sobre o passado sem esconder a emoção.

Não existia tristeza apenas.

Existia gratidão.

Chegaram ao ponto de ônibus.

A chuva diminuía lentamente.

— Obrigada pela companhia.

— Eu deveria agradecer.

Ela sorriu.

— Por quê?

— Faz muito tempo que não consigo conversar com alguém sem sentir o peso das lembranças.

O ônibus aproximava-se.

Antes de embarcar, Clara respondeu baixinho:

— Às vezes conversar também cura.

Henrique observou o veículo partir.

Pela primeira vez desde a morte da esposa, voltou para casa com a sensação de que o silêncio não era mais o único companheiro.

Os dias seguintes passaram depressa.

As conversas entre os dois tornaram-se frequentes.

Sempre rápidas.

Sempre respeitosas.

Um café antes dos ensaios.

Alguns minutos no jardim do teatro.

Comentários sobre música, literatura e dança.

Nunca ultrapassavam os limites.

Mas ambos sabiam que havia algo crescendo entre eles.

Algo delicado.

Algo perigoso.

As outras bailarinas começaram a notar.

— Você conversa bastante com o proprietário.

Marina comentou em tom curioso.

Clara respondeu imediatamente.

— Apenas sobre o teatro.

Mesmo dizendo a verdade, sentiu um desconforto inesperado.

Percebia como os olhares das pessoas podiam criar histórias inexistentes.

Henrique também começou a notar os comentários.

Na reunião da diretoria, ouviu um dos conselheiros elogiar Clara.

— Aquela jovem tem muito talento.

Henrique concordou.

Mas decidiu não acrescentar nenhuma palavra.

Precisava proteger Clara.

Principalmente dele mesmo.

Na sexta-feira, Helena organizou um ensaio especial apenas com a bailarina principal.

Ao final, Clara perdeu o equilíbrio durante um salto mais difícil.

Antes que caísse completamente, Henrique, que observava discretamente da lateral do palco, conseguiu segurá-la.

Foi apenas um instante.

Suas mãos encontraram as dela.

Os rostos ficaram muito próximos.

Os dois permaneceram imóveis.

O teatro inteiro pareceu desaparecer.

Clara podia ouvir apenas a própria respiração.

Henrique soltou suas mãos imediatamente.

Deu um passo para trás.

Seu olhar revelava um conflito profundo.

— Está machucada?

Ela respondeu quase num sussurro.

— Não.

Ele passou a mão pelos cabelos, claramente perturbado.

— Isso não pode continuar.

Clara sentiu o coração apertar.

— O quê?

Henrique respirou fundo.

— Esses encontros.

Essas conversas.

Esses sentimentos.

Ela permaneceu em silêncio.

Ele continuou:

— Você merece viver plenamente sua juventude.

Construir sua carreira sem que ninguém questione seu talento.

E eu… não posso permitir que a admiração que sinto coloque tudo isso em risco.

Clara aproximou-se lentamente.

— O senhor está tentando me convencer…

…ou convencer a si mesmo?

Henrique não respondeu.

Porque sabia que ela tinha razão.

Pela primeira vez em muitos anos, havia encontrado alguém capaz de atravessar todas as barreiras que construíra ao redor do próprio coração.

Mas também sabia que amar, às vezes, significava abrir mão da própria felicidade para proteger quem se ama.

Sem dizer mais uma palavra, ele virou-se e deixou o palco.

Clara permaneceu sozinha.

As luzes do teatro começaram a se apagar.

No enorme salão vazio, ela compreendeu que o sentimento entre os dois era real.

E justamente por isso seria muito mais difícil de enfrentar.

Mal sabia ela que a apresentação de gala mudaria suas vidas para sempre.

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