Capítulo 2 — A mulher que sabia demais
Clara passou a noite inteira sem dormir.
Sentada na cama, com o celular nas mãos, ela relia a mensagem que havia recebido.
“Eu sinto muito. Foi sem querer.”
Aquelas cinco palavras não saíam da sua cabeça.
Quem era aquela mulher?
E, principalmente, por que ela estava envolvida com Daniel?
Clara olhou para o relógio.
4h13.
Daniel dormia no quarto ao lado.
Ou pelo menos fingia dormir.
Desde que ela havia saído da sala, os dois não tinham trocado mais nenhuma palavra.
Clara abriu novamente a fotografia.
Era impossível negar.
Daniel estava abraçado àquela mulher.
O rosto dele estava encostado no dela.
Não era uma fotografia inocente.
Era íntima.
Era a prova de uma traição.
Mas havia algo naquela imagem que incomodava Clara.
A mulher não parecia feliz.
Ela parecia assustada.
Como se estivesse sendo obrigada a participar de alguma coisa.
Clara ampliou a fotografia.
No fundo da imagem havia uma placa.
Ela conseguiu ler apenas algumas letras:
“Hotel…”
O restante estava escondido.
Clara respirou fundo.
Talvez fosse ali que encontraria alguma resposta.
Às 6h30, levantou-se.
Tomou banho, vestiu uma roupa simples e desceu para a cozinha.
Daniel já estava acordado.
Estava sentado à mesa, segurando uma xícara de café.
— Você não dormiu — ele disse.
Clara abriu a geladeira.
— Nem você.
— Precisamos conversar.
— Precisamos.
Ele levantou.
— Clara, eu sei que você está machucada.
Ela se virou.
— Machucada?
Daniel ficou em silêncio.
— Essa palavra é pequena demais para o que você fez.
— Eu cometi erros.
— Não. Você fez escolhas.
Ele abaixou os olhos.
— Eu não queria perder você.
Clara riu sem humor.
— Então por que fez tudo isso?
Daniel se aproximou.
— Porque as coisas ficaram complicadas.
— Com quem?
Ele não respondeu.
— Com Helena?
Daniel levantou os olhos rapidamente.
Clara percebeu.
— Então é ela.
— Não é tão simples.
— Para mim é. Você me traiu. Ela está grávida. E existe outra mulher.
Daniel ficou pálido.
— Outra mulher?
Clara observou sua reação.
— Você não sabia que eu tinha visto a fotografia?
Ele não respondeu.
— Quem é ela, Daniel?
— Você precisa confiar em mim.
Clara sentiu uma raiva profunda.
— Depois de tudo isso, você ainda tem coragem de me pedir confiança?
Ele tentou falar, mas Clara o interrompeu.
— Eu vou sair.
— Para onde?
— Para descobrir a verdade.
— Clara, não vá.
Ela parou diante da porta.
— Por quê?
Daniel demorou alguns segundos para responder.
— Porque você pode se machucar.
Clara virou-se.
— Eu já estou machucada.
E saiu.
Às 18h40, Clara chegou ao Café Central.
Escolheu uma mesa no fundo.
O lugar estava relativamente vazio.
Ela olhava para a porta a cada poucos segundos.
19h.
19h05.
19h12.
Ninguém apareceu.
Clara começou a ficar nervosa.
Pegou o celular.
Nenhuma mensagem.
Então alguém sentou na cadeira à sua frente.
Clara levantou os olhos.
Era uma mulher.
Bonita.
Elegante.
Com os olhos vermelhos de tanto chorar.
Clara a reconheceu imediatamente.
Era a mulher da fotografia.
— Você…
A mulher segurou sua mão.
— Meu nome é Beatriz.
Clara puxou a mão.
— O que você quer de mim?
Beatriz respirou fundo.
— Quero pedir desculpas.
— Pelo quê?
— Por ter entrado na vida de vocês.
Clara sentiu o coração apertar.
— Você é amante do meu marido?
Beatriz abaixou a cabeça.
— Eu fui.
Clara fechou os olhos por um instante.
— Então a criança é sua?
— Não.
Clara ficou confusa.
— O quê?
Beatriz começou a chorar.
— O bebê não é meu.
— Então de quem é?
Ela olhou para Clara.
— De Helena.
Clara ficou imóvel.
— Helena está grávida.
— Sim.
— Mas Daniel disse que o filho é dele.
Beatriz respirou fundo.
— Daniel mente.
Clara sentiu um arrepio.
— Então quem é o pai?
Beatriz olhou para os lados antes de responder.
— Eu não sei.
— Você sabe de alguma coisa.
— Sei.
— Então fale.
Beatriz apertou os dedos sobre a mesa.
— Daniel nunca teve um relacionamento com Helena.
Clara franziu a testa.
— Como assim?
— Eles estavam envolvidos em outra coisa.
— Que coisa?
Beatriz hesitou.
— Dinheiro.
Clara ficou em silêncio.
— Daniel estava ajudando Helena a esconder uma dívida enorme. Ela devia dinheiro para pessoas perigosas.
— E por que ele faria isso?
— Porque Helena tinha alguma coisa contra ele.
Clara sentiu o coração acelerar.
— O quê?
Beatriz olhou diretamente para ela.
— Um segredo.
— Que segredo?
— Eu não sei exatamente.
— Você está mentindo.
— Não estou.
Beatriz abriu a bolsa e tirou um envelope.
Colocou sobre a mesa.
— Isso estava com Daniel.
Clara olhou para o envelope.
— O que é?
— Abra.
Clara hesitou.
Depois abriu.
Dentro havia várias fotografias.
Na primeira, Daniel aparecia entrando em um prédio.
Na segunda, conversava com um homem desconhecido.
Na terceira, segurava uma mala.
Na quarta, aparecia Helena.
Mas a última fotografia fez Clara perder o ar.
Ela conhecia aquele lugar.
Era a antiga casa de sua mãe.
Clara levantou os olhos.
— Por que Daniel estava lá?
Beatriz ficou em silêncio.
— Responde!
— Porque foi lá que tudo começou.
— Tudo o quê?
Beatriz respirou profundamente.
— O segredo que ele esconde de você.
Clara começou a juntar as fotografias.
— Eu preciso saber.
— Você realmente quer saber?
— Quero.
Beatriz aproximou-se.
— Então procure dentro da sua própria casa.
Clara franziu a testa.
— O quê?
— Existe uma coisa escondida lá.
— Onde?
Beatriz balançou a cabeça.
— Isso eu não posso dizer.
— Você me trouxe aqui para me deixar ainda mais confusa?
— Eu trouxe você porque você precisava saber que Daniel não é a única pessoa mentindo.
Clara ficou em silêncio.
— Quem mais está mentindo?
Beatriz levantou-se.
— Alguém que você ama.
— Quem?
Beatriz não respondeu.
Apenas deixou uma última fotografia sobre a mesa.
Depois saiu.
Clara ficou olhando para a imagem.
Demorou alguns segundos para perceber.
Era uma fotografia antiga.
Muito antiga.
Nela apareciam três pessoas.
Daniel.
Helena.
E outra pessoa.
Clara aproximou a fotografia do rosto.
Seu coração disparou.
A terceira pessoa era alguém que ela conhecia desde criança.
Alguém que sempre esteve presente em sua vida.
Alguém que ela jamais imaginaria estar envolvido naquela história.
Clara sentiu as mãos tremerem.
— Não…
Ela virou a fotografia.
No verso havia uma data.
15 de agosto de 2012.
E uma frase escrita à mão:
“Quando Clara descobrir, tudo estará perdido.”
Clara ficou paralisada.
Aquela data era impossível.
Ela conhecia aquela data.
Era o dia em que seu pai havia desaparecido.
Durante anos, sua família acreditara que ele havia abandonado todos.
Mas e se não tivesse sido assim?
E se Daniel soubesse o que realmente havia acontecido?
Clara pegou o celular e ligou para ele.
Chamou uma vez.
Duas.
Três.
Nada.
Ligou novamente.
Dessa vez, Daniel atendeu.
— Clara?
A voz dele estava nervosa.
— Onde você está?
Silêncio.
— Daniel, eu perguntei onde você está.
— Em casa.
Clara olhou para a fotografia.
— Mentira.
Ele ficou em silêncio.
— Eu sei sobre o dia 15 de agosto de 2012.
Do outro lado da linha, a respiração de Daniel mudou.
Clara percebeu.
— Então você sabe.
— Clara…
— O que aconteceu com meu pai?
Silêncio.
— Responde!
Daniel começou a chorar.
— Eu tentei proteger você.
Clara sentiu o mundo desaparecer ao seu redor.
— Proteger de quê?
— Da verdade.
— Qual verdade?
Ele demorou alguns segundos.
Então disse:
— Seu pai não abandonou vocês.
Clara levou a mão à boca.
— Então onde ele está?
Daniel respirou fundo.
— Eu não sei.
— Você está mentindo!
— Não estou.
— Você estava lá naquele dia?
Silêncio.
Clara fechou os olhos.
— Daniel…
Ele finalmente respondeu.
— Sim.
Ela sentiu as pernas perderem a força.
— Você estava lá?
— Eu tinha dezenove anos.
— O que você viu?
Daniel chorava.
— Eu vi seu pai entrar naquele carro.
— Quem estava dirigindo?
Daniel não respondeu.
Clara apertou o celular.
— Quem estava dirigindo aquele carro, Daniel?
Do outro lado, ouviu-se apenas uma respiração pesada.
Então ele disse:
— A pessoa que você mais confia.
A ligação caiu.
Clara ficou imóvel.
Seu celular escorregou lentamente de sua mão.
Ela olhou novamente para a fotografia.
Agora tudo fazia sentido.
Ou pelo menos começava a fazer.
A traição de Daniel era apenas a ponta de uma história que havia começado muitos anos antes.
Uma história envolvendo sua família.
Helena.
Beatriz.
Seu pai.
E alguém muito próximo.
Clara levantou-se da mesa.
Precisava voltar para casa.
Precisava descobrir o que estava escondido ali.
Mas quando abriu a porta do café, encontrou uma surpresa.
Daniel estava parado do outro lado da rua.
E não estava sozinho.
Ao lado dele estava a mulher que Clara jamais imaginaria ver naquela noite.
A pessoa em quem ela mais confiava.
Clara ficou olhando.
Daniel também a viu.
E seu rosto ficou completamente sem cor.
A mulher ao lado dele virou-se.
Quando os olhos das duas se encontraram, Clara sentiu o coração parar.
Porque aquela mulher sorriu.
E disse:
— Finalmente você descobriu.

