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Capítulo 5 — A Irmã de Helena

O rosto que não podia ser real

Ana Júlia não conseguia desviar os olhos da jovem parada diante da porta.

Era como olhar para uma fotografia de Helena que tivesse ganhado vida.

Os mesmos olhos.

O mesmo formato do rosto.

O mesmo sorriso discreto.

Por um instante, Ana Júlia teve a sensação de que o passado havia voltado para cobrar todas as respostas que ninguém quis dar.

— Você é irmã de Helena? — perguntou, quase sem voz.

A jovem assentiu.

— Meu nome é Isabela.

Ana Júlia apertou a carta contra o peito.

— Mas Helena nunca falou de você.

— Porque ninguém deveria saber que eu existia.

Ricardo fechou a porta da casa.

— Precisamos sair daqui.

Isabela olhou para ele.

— Eles já sabem onde estamos.

Ana Júlia sentiu o medo voltar.

— Quem são eles?

Isabela entrou na casa e fechou a porta.

— As pessoas que fizeram Helena desaparecer.

— Você sabe quem matou minha mãe? — perguntou Ana Júlia.

Isabela ficou imóvel.

— Sua mãe?

Ana Júlia percebeu o que havia acabado de revelar.

— O que você sabe sobre ela?

Isabela olhou para Ricardo.

— Então você finalmente contou.

Ricardo balançou a cabeça.

— Ela encontrou a carta.

Isabela voltou os olhos para Ana Júlia.

— Você precisa saber de tudo.

A história escondida

Isabela sentou-se diante da mesa.

Ana Júlia permaneceu em pé.

— Helena não era apenas minha irmã — começou Isabela. — Ela era a única pessoa que sabia toda a verdade sobre a sua família.

— Minha família?

— Sim.

Ana Júlia sentiu o coração acelerar.

— Por que Helena estava procurando por mim?

Isabela respirou fundo.

— Porque você era a pessoa que ela precisava proteger.

— Proteger de quem?

— De Marcelo.

Ana Júlia fechou os olhos.

— Ele conhecia minha mãe?

— Muito mais do que isso.

Isabela hesitou.

— Seu pai e o pai de Marcelo eram sócios. As duas famílias tinham negócios juntos. Quando sua mãe descobriu que havia dinheiro sendo desviado, tentou denunciar.

— E Marcelo sabia?

— Sabia.

Ana Júlia sentiu um aperto no peito.

Durante toda a vida, ouvira que seus pais haviam tido problemas financeiros e que seu pai havia morrido deixando poucas lembranças.

Agora começava a perceber que talvez tudo tivesse sido uma mentira.

— O que aconteceu com minha mãe?

Isabela baixou os olhos.

— Ela desapareceu quando você ainda era criança.

Ana Júlia sentiu as lágrimas escorrerem.

— Disseram que ela morreu.

— Foi isso que fizeram você acreditar.

— Quem?

Isabela olhou para Ricardo.

— Ele estava lá.

Ana Júlia virou-se para Ricardo.

— Você conheceu minha mãe?

Ricardo assentiu.

— Eu trabalhava para Marcelo naquela época.

— E você viu o que aconteceu?

— Vi.

A noite que mudou tudo

Ricardo contou que, muitos anos antes, Marcelo havia descoberto que Helena e a mãe de Ana Júlia estavam investigando os negócios da família.

As duas mulheres haviam encontrado documentos capazes de destruir a reputação de vários homens poderosos da região.

— Helena decidiu ajudar sua mãe — explicou Ricardo.

— E minha mãe confiou nela?

— Sim.

— Então por que Helena morreu?

Ricardo fechou os olhos.

— Porque elas descobriram demais.

Ana Júlia sentiu um nó na garganta.

— Quem matou minha mãe?

Ricardo não respondeu.

Isabela falou:

— Ainda não temos provas.

— Mas você sabe quem foi.

— Suspeitamos.

— Quem?

Isabela aproximou-se.

— Seu pai.

Ana Júlia ficou em choque.

— Meu pai?

— Não sabemos se ele participou diretamente. Mas ele desapareceu na mesma época.

Ana Júlia sentiu o mundo desabar.

— Meu pai não poderia fazer isso.

— Talvez não tenha feito.

Isabela colocou alguns documentos sobre a mesa.

— É justamente por isso que precisamos encontrar a verdade.

Ana Júlia pegou os papéis.

Entre eles havia uma fotografia antiga de seus pais.

Ao lado deles estava Marcelo.

E, atrás, quase escondida, estava Helena.

No verso havia uma data.

Três dias antes do desaparecimento da mãe de Ana Júlia.

A ligação com João Paulo

Ana Júlia olhou para Ricardo.

— E João Paulo?

Isabela suspirou.

— João Paulo foi usado por Marcelo.

— Como?

— Marcelo descobriu que Helena estava apaixonada por ele. Depois descobriu que ela estava grávida.

Ana Júlia ficou em silêncio.

— Ele queria a criança?

— Não.

— Então o que queria?

— Queria que Helena ficasse calada.

Ana Júlia sentiu um arrepio.

— E ela não ficou.

— Não.

— Por isso desapareceu?

Isabela assentiu.

— Mas existe outra coisa.

Ana Júlia esperou.

— A filha de Helena não era apenas filha de João Paulo.

Ana Júlia franziu a testa.

— Como assim?

Isabela respirou fundo.

— Helena deixou pistas de que a criança tinha uma ligação com a sua família.

— Que ligação?

Isabela olhou diretamente para ela.

— A menina pode ser sua irmã.

Ana Júlia ficou sem palavras.

— Não entendo.

— Nem eu. Mas Helena deixou documentos que indicam que havia um segredo sobre o nascimento da criança.

Ricardo interrompeu:

— Precisamos encontrar esses documentos antes que Marcelo chegue até eles.

O perigo se aproxima

Um barulho de motor surgiu do lado de fora.

Todos ficaram em silêncio.

Isabela foi até a janela.

— Tem alguém vindo.

Ricardo apagou a luz.

Ana Júlia segurou a carta com força.

— É Marcelo?

Isabela observou o carro.

— Não.

— Então quem?

— Não sei.

O veículo parou a poucos metros da casa.

Duas portas se abriram.

Homens desceram.

Ricardo pegou uma arma que estava escondida atrás de uma tábua.

Ana Júlia arregalou os olhos.

— Você estava armado?

— Na situação em que estamos, é melhor estar preparado.

Passos se aproximaram.

Isabela segurou a mão de Ana Júlia.

— Quando eu mandar, corra para os fundos.

— E vocês?

— Vamos atrás de você.

Uma pancada atingiu a porta.

Depois outra.

A madeira começou a tremer.

— Agora! — gritou Ricardo.

Ana Júlia correu.

Ela atravessou a pequena cozinha e saiu pela porta dos fundos.

Isabela veio logo atrás.

Ricardo ficou para trás.

Os homens invadiram a casa.

Um disparo ecoou.

Ana Júlia gritou.

— Ricardo!

— Continue correndo! — ele respondeu.

As duas correram pela mata.

Galhos atingiam seus braços.

O chão estava molhado.

Ana Júlia quase caiu.

Isabela a segurou.

— Não pare!

— Para onde estamos indo?

— Para o rio.

— Por quê?

— Existe uma estrada do outro lado.

As duas chegaram à margem.

O rio estava mais cheio do que antes.

Isabela olhou para Ana Júlia.

— Precisamos atravessar.

— Eu não consigo.

— Consegue sim.

A descoberta no rio

Quando estavam prestes a entrar na água, Ana Júlia viu algo preso entre as pedras.

Uma pequena caixa metálica.

— Espere.

Ela se abaixou.

Puxou a caixa.

Estava enferrujada, mas ainda fechada.

Isabela ficou pálida.

— Onde encontrou isso?

— Aqui.

Isabela reconheceu imediatamente.

— É de Helena.

Ana Júlia abriu a caixa.

Dentro havia um pequeno medalhão, uma chave e vários documentos protegidos por plástico.

Ela pegou o primeiro.

Era uma certidão.

Seu coração disparou.

— Isabela…

— O que foi?

Ana Júlia mostrou o documento.

Era um registro antigo.

Havia dois nomes de mulheres.

Helena e sua mãe.

Mas havia algo ainda mais estranho.

Uma terceira informação aparecia no documento.

Um nome que Ana Júlia conhecia muito bem.

Marcelo.

— Por que o nome dele está aqui?

Isabela pegou o documento.

Leu.

Seu rosto mudou.

— Meu Deus.

— O que foi?

Isabela olhou para Ana Júlia.

— Isso muda tudo.

— O quê?

— Marcelo não conheceu Helena depois que ela desapareceu.

— Então?

— Ele conhecia Helena antes mesmo de você nascer.

Ana Júlia sentiu o corpo gelar.

A chave

No fundo da caixa havia uma pequena chave dourada.

Ana Júlia a pegou.

— Chave de quê?

Isabela observou.

— Não sei.

Ricardo apareceu entre as árvores.

Estava ferido no braço.

— Vocês precisam ir embora.

Ana Júlia correu até ele.

— Você está machucado!

— Não é nada.

— Quem eram aqueles homens?

— Pessoas de Marcelo.

Isabela levantou a caixa.

— Encontramos isso.

Ricardo ficou sério.

— Onde?

— No rio.

Ele pegou a chave.

Assim que a viu, ficou pálido.

— Essa chave…

— Você conhece?

Ricardo assentiu.

— É do antigo cofre da fazenda.

Ana Júlia sentiu o coração acelerar.

— Que cofre?

— Um que Marcelo mantém escondido há mais de vinte anos.

— E o que tem dentro?

Ricardo olhou para ela.

— Tudo o que ele passou a vida tentando esconder.

Ana Júlia apertou a chave na mão.

Pela primeira vez, percebeu que não queria apenas descobrir a verdade.

Queria enfrentá-la.

Mesmo que isso destruísse seu casamento, sua família e tudo aquilo que acreditava ser sua própria história.

A última mensagem

Antes que partissem, o celular de Ana Júlia vibrou.

Uma mensagem desconhecida.

Ela abriu.

Havia apenas uma fotografia.

Na imagem, Marcelo aparecia ao lado de uma mulher.

Ana Júlia aproximou o telefone.

Era Helena.

Mas havia algo ainda mais assustador.

A fotografia havia sido tirada na noite anterior ao desaparecimento dela.

Abaixo da imagem, uma frase:

“Se quiser descobrir quem matou Helena, abra o cofre antes de João Paulo.”

Ana Júlia ficou imóvel.

— Por que antes de João Paulo? — perguntou Isabela.

Ela não sabia.

Mas naquele momento percebeu uma coisa.

João Paulo também estava escondendo algo.

Talvez o homem por quem ela havia colocado seu casamento em risco não fosse apenas uma vítima daquela história.

Talvez ele tivesse sido parte dela desde o começo.

Ana Júlia guardou o celular.

— Vamos voltar para a fazenda.

Ricardo a encarou.

— Você tem certeza?

Ela respirou fundo.

— Sim.

— E se Marcelo estiver esperando?

Ana Júlia olhou para a chave em sua mão.

— Então ele finalmente vai ter que me contar a verdade.

Mas, em algum lugar da fazenda, João Paulo já sabia que Ana Júlia havia encontrado a chave.

E ele estava disposto a fazer qualquer coisa para impedir que ela abrisse aquele cofre.

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