A soldado que desafiou o general
O vento cortava o campo de treinamento quando Carolina terminou a última corrida. Suja de barro, respirando com dificuldade, ela ainda permanecia de pé quando os demais soldados já haviam sido dispensados.
— Soldado Carolina! — gritou uma voz firme.
Ela se virou imediatamente.
O homem que caminhava em sua direção fazia todos ao redor ficarem em silêncio.
General Augusto Montenegro.
Conhecido pela disciplina implacável, pela postura rígida e pelo olhar que parecia enxergar além das palavras, Augusto era respeitado — e temido — por todos os soldados sob seu comando.
Carolina bateu continência.
— General.
Ele parou diante dela.
— Por que não saiu com os outros?
— Porque ainda não terminei, senhor.
Augusto olhou para o percurso.
— Você já completou o treinamento.
— Sei disso.
— Então por que continuou?
Carolina sustentou o olhar dele.
— Porque quero ser a melhor.
Por um instante, o general pareceu surpreso.
— Ambição demais pode ser perigosa, soldado.
— Falta de ambição também, senhor.
Alguns soldados próximos prenderam a respiração.
Ninguém falava daquele jeito com Augusto.
Ele se aproximou.
— Você costuma desafiar seus superiores?
— Somente quando acredito que estão errados.
O olhar dele endureceu.
— Cuidado, Carolina.
Ela não recuou.
— Sempre tenho, senhor.
Augusto virou-se e foi embora.
Mas, pela primeira vez em muitos anos, algo havia perturbado sua concentração.
Aquela soldado.
Aquela coragem.
Aquele olhar.
Uma ordem inesperada
Naquela noite, Carolina recebeu uma convocação.
Apresentar-se imediatamente ao gabinete do general.
Seu coração acelerou.
Quando entrou, Augusto estava diante de uma grande janela, lendo alguns documentos.
— Feche a porta.
Carolina obedeceu.
— O senhor me chamou?
— Sim.
Ele colocou uma pasta sobre a mesa.
— Amanhã você será transferida para minha equipe.
Carolina franziu a testa.
— Por quê?
— Porque preciso de alguém confiável.
— Existem muitos soldados qualificados.
— Eu escolhi você.
Ela pegou a pasta.
— Qual é a missão?
Augusto a encarou.
— Ainda não posso dizer.
Carolina estranhou.
— Então por que fui escolhida?
Ele demorou alguns segundos.
— Porque você não foge quando sente medo.
Ela ficou em silêncio.
Augusto se aproximou.
— E porque vou precisar confiar minha vida a você.
As palavras fizeram o coração de Carolina bater mais forte.
Mas ela não demonstrou.
— Estarei pronta, general.
Quando saiu do gabinete, não percebeu que Augusto continuou olhando para a porta fechada.
Ele sabia que aquela missão seria perigosa.
O que ainda não sabia era que o maior perigo talvez não estivesse do lado de fora.
Estava começando dentro dele.
E Carolina também começava a perceber que o homem que todos chamavam de general poderia esconder um coração muito diferente daquele que mostrava ao mundo.

