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Entre a Honra e o Desejo — Capítulo 2

A missão secreta

Carolina chegou ao quartel antes do amanhecer.

Ainda carregava na cabeça as palavras do general Augusto Montenegro.

“Vou precisar confiar minha vida a você.”

Ela não conseguia entender por que aquela frase havia mexido tanto com ela.

Augusto era seu superior. Um homem respeitado, distante e acostumado a controlar cada situação.

Ela era apenas uma soldado entre tantos outros.

Ou pelo menos era isso que repetia para si mesma.

Quando entrou na sala de operações, encontrou Augusto diante de um grande mapa.

Ele não levantou os olhos imediatamente.

— Está atrasada.

Carolina olhou para o relógio.

— Cheguei dez minutos antes do horário, senhor.

Ele ergueu os olhos.

— Eu sei.

Ela percebeu um pequeno sorriso no canto da boca dele.

— Então por que disse que estou atrasada?

— Queria saber se você contestaria.

Carolina cruzou os braços.

— O senhor já sabe que eu contesto.

Augusto a observou por alguns segundos.

— É justamente por isso que está aqui.

Ele apontou para o mapa.

— Temos uma equipe desaparecida numa região de mata fechada. Perdemos contato há vinte e quatro horas.

— Quantos homens?

— Cinco.

— Algum sinal?

— Nenhum.

Carolina analisou o mapa.

— E por que uma soldado foi escolhida para essa missão?

Augusto respondeu sem hesitar:

— Porque você conhece sobrevivência em terreno de mata melhor do que qualquer outro soldado da unidade.

Ela ficou séria.

— Qual é o objetivo?

— Encontrar a equipe. Descobrir o que aconteceu. E trazê-los de volta.

Carolina assentiu.

— Quando partimos?

— Em duas horas.

Uma advertência

Antes de Carolina sair, Augusto chamou:

— Soldado.

Ela se virou.

— Sim, senhor?

— Esta missão não será como as outras.

— Eu sei.

— Não. Você não sabe.

Ele se aproximou.

— Existe alguém naquela região que não queremos encontrar.

Carolina franziu a testa.

— Quem?

— Ainda não sabemos.

— Isso não faz sentido.

— É por isso que você não deve fazer perguntas durante a missão.

Ela ficou olhando para ele.

— O senhor quer que eu obedeça sem saber o motivo?

— Quero que confie em mim.

A frase provocou um silêncio.

Carolina respirou fundo.

— Confio nas ordens, general. Não em pessoas.

Augusto a encarou.

— Talvez um dia isso mude.

Ela saiu antes que ele percebesse que aquelas palavras haviam mexido com ela.

A partida

Duas horas depois, quatro soldados estavam preparados para partir.

Carolina verificou o equipamento.

Tudo estava em ordem.

Augusto apareceu usando uniforme de campanha.

Ela ficou surpresa.

— O senhor vai conosco?

— Sim.

— Achei que comandaria de longe.

— Mudança de planos.

Carolina não conseguiu esconder a preocupação.

— Então a missão ficou ainda mais importante.

— Ou mais perigosa.

Ele passou por ela.

Durante o trajeto, os dois quase não conversaram.

A mata tornou-se cada vez mais fechada.

Depois de algumas horas, encontraram o primeiro sinal.

Uma mochila abandonada.

Carolina se agachou.

— É de um dos soldados desaparecidos.

Augusto aproximou-se.

— Algum sangue?

— Não.

Ela examinou o chão.

— Pegadas.

— Quantas?

— Duas pessoas.

Augusto ficou atento.

— Nossa equipe?

Carolina balançou a cabeça.

— Não. As botas são diferentes.

Um dos soldados perguntou:

— Então quem esteve aqui?

Augusto respondeu:

— Continuem avançando.

Mas Carolina percebeu algo no rosto dele.

Ele já suspeitava da resposta.

A noite na floresta

A equipe montou acampamento quando anoiteceu.

Carolina ficou responsável pela primeira vigília.

Augusto apareceu pouco depois.

— Você deveria descansar.

— Estou bem.

— Não foi o que perguntei.

Ela sorriu discretamente.

— O senhor sempre dá ordens assim?

— Quando necessário.

Ele sentou-se próximo.

Por alguns minutos, apenas ouviram os sons da floresta.

— Posso fazer uma pergunta? — disse Carolina.

— Pode.

— Por que entrou para o Exército?

Augusto demorou a responder.

— Porque perdi alguém.

Carolina ficou séria.

— Quem?

— Meu irmão.

Ela não insistiu.

Mas ele continuou.

— Ele morreu durante uma missão. Eu prometi que nunca deixaria outro soldado morrer por falta de preparo.

Carolina olhou para ele de maneira diferente.

Pela primeira vez, viu o homem por trás do uniforme.

— Sinto muito.

Augusto assentiu.

— E você?

— Eu sempre quis provar que conseguia.

— Para quem?

Carolina ficou em silêncio.

— Para mim mesma.

Augusto sorriu.

— Essa é uma resposta perigosa.

— Por quê?

— Porque pessoas que tentam provar algo para si mesmas costumam esquecer que também precisam sobreviver.

Carolina olhou para ele.

Os dois ficaram próximos demais.

Ela desviou os olhos.

— General…

— Eu sei.

Augusto levantou-se.

— Esqueça.

Mas nenhum dos dois esqueceu.

O ataque

Pouco depois da meia-noite, um ruído surgiu entre as árvores.

Carolina levantou-se imediatamente.

— Movimento.

Augusto fez sinal para todos permanecerem em silêncio.

Um galho quebrou.

Depois outro.

De repente, um disparo ecoou.

Os soldados se jogaram no chão.

— Ataque! — gritou Augusto.

Tudo aconteceu rapidamente.

Carolina protegeu um dos soldados feridos enquanto Augusto comandava a retirada.

— Para a margem do rio! — ordenou.

Eles correram.

Mais disparos atingiram as árvores.

Carolina tropeçou.

Augusto voltou.

— Levante!

— Estou bem!

Ele segurou o braço dela.

— Vamos!

Os dois correram juntos.

Quando chegaram ao rio, perceberam que haviam se separado dos demais.

Estavam sozinhos.

Perdidos

Carolina respirava com dificuldade.

— Onde estão os outros?

Augusto olhou ao redor.

— Não sei.

— Então estamos perdidos.

— Ainda não.

— General, não temos comunicação.

Ele verificou o rádio.

Silêncio.

Carolina olhou para a mata.

— Eles sabiam que viríamos.

Augusto ficou sério.

— Eu também percebi.

— Como?

— Porque ninguém encontra uma equipe militar por acaso.

Carolina aproximou-se.

— Então alguém passou informações.

Augusto não respondeu.

— Existe um traidor.

— Talvez.

— E o senhor suspeita de alguém.

Ele olhou para ela.

— Sim.

— Quem?

Antes que respondesse, ouviram vozes.

Os dois se esconderam atrás de uma árvore.

Homens atravessaram a mata carregando equipamentos.

Carolina reconheceu um deles.

— É o sargento Daniel.

Augusto ficou imóvel.

Daniel fazia parte da equipe de apoio.

— Ele não deveria estar aqui — sussurrou Carolina.

— Exatamente.

Os homens desapareceram.

Carolina olhou para Augusto.

— O que fazemos?

— Seguimos.

A descoberta

Os dois acompanharam os homens até uma construção abandonada.

Lá dentro estavam os soldados desaparecidos.

Vivos.

Amarrados.

Carolina respirou aliviada.

Mas havia algo mais.

Mapas sobre uma mesa.

Fotografias.

Documentos.

E uma lista com nomes de oficiais.

Augusto aproximou-se.

Seu rosto ficou sombrio.

— O que foi?

Ele apontou para um nome.

Augusto Montenegro.

Carolina sentiu um arrepio.

— Eles estavam planejando algo contra o senhor.

— Não apenas contra mim.

Ela observou a lista.

Havia vários nomes.

— Estão tentando eliminar pessoas do comando.

Augusto assentiu.

— E alguém dentro do Exército está ajudando.

De repente, ouviram passos.

Carolina apagou a lanterna.

Dois homens entraram.

Um deles falou:

— O general ainda não sabe que a soldado Carolina é a verdadeira chave.

Ela arregalou os olhos.

Augusto também ficou imóvel.

— Chave de quê? — ela sussurrou.

Ele fez sinal para esperar.

Os homens saíram.

Carolina virou-se para Augusto.

— O que eles quiseram dizer?

— Eu não sei.

— Está mentindo.

— Não estou.

— Então por que escolheram justamente a mim?

Augusto ficou em silêncio.

Carolina se aproximou.

— General.

Ele finalmente respondeu:

— Porque seu pai estava envolvido nesta operação anos atrás.

Ela ficou sem palavras.

— Meu pai?

— Sim.

— O senhor conhecia meu pai?

Augusto assentiu.

— Muito bem.

— E nunca me contou?

— Eu não sabia se podia confiar em você.

Carolina sentiu a raiva crescer.

— Então me trouxe para esta missão para descobrir alguma coisa sobre meu pai?

— Não.

— Então por quê?

Augusto olhou para ela.

— Porque, quando vi seu nome entre os soldados selecionados, percebi que você estava sendo observada.

— Por quem?

— Por pessoas que acreditam que você possui informações que nem você sabe que possui.

Carolina sentiu um frio na barriga.

— Que informações?

Antes que Augusto respondesse, uma explosão sacudiu o prédio.

Os dois caíram.

— Vamos! — gritou Augusto.

Eles libertaram os soldados e saíram pela porta dos fundos.

A mata estava tomada por fumaça.

Carolina segurou o braço de Augusto.

— Temos que ir!

A verdade começa a aparecer

Horas depois, já em segurança, a equipe conseguiu chegar a um ponto de comunicação.

Um helicóptero foi enviado.

Enquanto aguardavam, Carolina permaneceu afastada dos outros.

Augusto aproximou-se.

— Você está bem?

— Não.

Ele ficou em silêncio.

— Quero respostas.

— Eu sei.

— Meu pai morreu há dez anos. O senhor está dizendo que ele estava envolvido em uma operação secreta. Por quê?

Augusto sentou-se ao lado dela.

— Seu pai era um dos melhores oficiais que conheci.

— E então?

— Ele descobriu uma rede de corrupção dentro do Exército.

Carolina sentiu os olhos se encherem de lágrimas.

— Foi por isso que morreu?

Augusto não respondeu.

Ela entendeu.

— Meu Deus…

Ele colocou a mão sobre a dela.

Foi um gesto simples.

Mas nenhum dos dois estava preparado para o que aquilo provocou.

Carolina olhou para a mão dele.

Depois para seus olhos.

Augusto retirou a mão lentamente.

— Isso não deveria acontecer.

— O quê?

— Nós.

Carolina respirou fundo.

— Ainda não aconteceu nada.

Augusto levantou-se.

— É justamente isso que me preocupa.

Ela ficou olhando enquanto ele se afastava.

Naquela noite, Carolina percebeu que havia duas guerras acontecendo.

Uma contra os inimigos que ameaçavam sua unidade.

E outra dentro dela.

Porque, quanto mais conhecia o general Augusto Montenegro, mais difícil ficava lembrar que ele era apenas seu superior.

E, no fundo, ela começava a suspeitar que o maior segredo daquela missão não estava relacionado ao seu pai.

Estava relacionado ao próprio general.

E alguém dentro do Exército faria qualquer coisa para impedir que Carolina descobrisse a verdade.

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