Capítulo 1 — A mensagem que não era para ela
Clara acreditava que conhecia Daniel.
Depois de oito anos juntos, ela conhecia seus hábitos, seus silêncios, suas manias e até o jeito como ele mexia no cabelo quando estava nervoso. Sabia exatamente como ele gostava do café pela manhã, qual era sua comida preferida e até o momento em que ele costumava chegar em casa.
Ou pelo menos pensava que sabia.
Naquela noite, Clara estava sentada no sofá, olhando para o relógio pela décima vez.
23h47.
Daniel ainda não havia chegado.
Ela tentou ligar.
Caixa postal.
Mandou uma mensagem.
“Você está bem?”
Nenhuma resposta.
Clara respirou fundo e deixou o celular sobre a mesa.
Não era a primeira vez que Daniel chegava tarde. Nos últimos meses, o trabalho havia se tornado uma desculpa constante.
Reuniões.
Clientes.
Problemas.
Viagens de última hora.
No começo, Clara acreditava.
Depois começou a desconfiar.
Mas sempre que perguntava, Daniel conseguia fazê-la sentir que estava exagerando.
— Você está imaginando coisas, Clara.
Era sempre assim.
E ela acabava pedindo desculpas.
Naquela noite, porém, alguma coisa dentro dela dizia que havia algo errado.
Às 00h16, ouviu o barulho do carro entrando na garagem.
Daniel entrou em casa alguns minutos depois.
— Desculpa, amor. Foi um dia terrível.
Clara observou o marido.
Camisa amassada.
Olheiras.
Perfume diferente.
E aquele sorriso forçado.
— Você está bem? — perguntou ela.
— Estou. Só estou cansado.
Ele se aproximou para beijá-la.
Clara virou o rosto.
— Vou dormir.
Daniel pareceu incomodado.
— Está brava comigo?
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
Mas não tinha.
Enquanto Daniel foi para o banheiro tomar banho, Clara permaneceu sentada no sofá.
O silêncio da casa parecia ainda maior naquela noite.
Então o celular de Daniel vibrou.
Clara olhou automaticamente.
Não queria mexer.
Não queria invadir a privacidade dele.
Até que a tela acendeu novamente.
Uma mensagem apareceu.
“Você prometeu que viria. Não aguento mais ser escondida.”
Clara congelou.
Seu coração começou a bater mais rápido.
Ela olhou para a porta do banheiro.
A água do chuveiro continuava caindo.
Outra mensagem chegou.
“Quando você vai contar para ela?”
Clara sentiu as mãos tremerem.
Ela pegou o celular.
Não precisou desbloqueá-lo.
A terceira mensagem apareceu na tela.
“Ela merece saber que você vai ser pai.”
O mundo pareceu parar.
Pai?
Clara sentiu uma tontura.
Sentou-se novamente.
Durante oito anos, ela e Daniel haviam tentado construir uma família. Tinham feito planos, economizado dinheiro, comprado uma casa e conversado inúmeras vezes sobre ter filhos.
E agora uma desconhecida dizia estar grávida dele.
Daniel saiu do banheiro.
Quando viu Clara segurando seu celular, parou imediatamente.
Os dois se encararam.
Nenhum dos dois falou.
— Clara…
Ela levantou o aparelho.
— Quem é ela?
Daniel ficou pálido.
— Você mexeu no meu celular?
— Responde.
— Clara, não é o que você está pensando.
Ela soltou uma risada curta.
— Essa frase é tão velha, Daniel.
— Eu posso explicar.
— Então explique.
Ele permaneceu em silêncio.
Clara sentiu uma lágrima escorrer pelo rosto.
— Há quanto tempo?
Daniel fechou os olhos.
— Clara…
— Há quanto tempo você está me traindo?
Ele respirou profundamente.
— Quase um ano.
Aquelas três palavras destruíram tudo.
Quase um ano.
Não havia sido um erro.
Não havia sido uma noite.
Não havia sido uma fraqueza.
Era uma segunda vida.
Uma vida que Daniel havia escolhido esconder dela durante quase doze meses.
Clara levantou-se.
— Quem é ela?
— Não importa.
— Para mim importa!
— Eu nunca quis machucar você.
Clara se aproximou dele.
— Você não quis me machucar?
Ela apontou para o próprio peito.
— Você passou quase um ano mentindo para mim. Olhou nos meus olhos todos os dias e mentiu.
Daniel tentou segurá-la.
Ela afastou sua mão.
— Não encosta em mim.
— Eu ainda amo você.
Clara balançou a cabeça.
— Não diga isso.
— É verdade.
— Não. Quem ama não faz isso.
Daniel ficou em silêncio.
Clara respirou fundo.
— Ela está grávida?
Ele não respondeu.
— Daniel!
— Sim.
Clara fechou os olhos.
Era como se alguém tivesse arrancado o chão debaixo de seus pés.
— Há quanto tempo?
— Sete meses.
Sete meses.
Clara fez as contas mentalmente.
Sete meses.
Naquele período, Daniel havia comemorado com ela o aniversário de casamento.
Havia levado flores para casa.
Havia dito que a amava.
Havia dormido ao lado dela todas as noites.
E, enquanto fazia tudo isso, outra mulher carregava seu filho.
— Você pretendia me contar?
Daniel abaixou a cabeça.
— Eu não sabia como.
— Você teve sete meses para descobrir.
Ele não respondeu.
Clara começou a andar pela sala, tentando controlar a respiração.
Então o celular vibrou novamente.
Dessa vez, a mensagem dizia:
“Daniel, não vou mais aceitar suas mentiras. Se você não contar a verdade para ela, eu mesma vou contar.”
Clara olhou para ele.
— Ela quer alguma coisa de você.
Daniel ficou nervoso.
— Clara, por favor…
— O que ela sabe?
— Nada.
— Você está mentindo novamente.
Ele não respondeu.
Clara percebeu.
Havia muito mais naquela história.
Muito mais do que uma amante grávida.
— Quem é ela?
Daniel passou as mãos pelo rosto.
— Você não conhece.
— Então diga o nome.
Ele hesitou.
— Helena.
Clara repetiu baixinho:
— Helena…
O nome despertou alguma coisa.
Ela conhecia aquele nome.
Mas não conseguia lembrar de onde.
Foi até a cozinha, abriu a gaveta onde guardava documentos e encontrou uma fotografia antiga.
Uma fotografia de uma festa de família.
Clara olhou para a imagem.
Daniel estava ao seu lado.
Atrás deles, entre várias pessoas, estava uma mulher sorrindo.
Clara sentiu o sangue gelar.
Era Helena.
Mas havia outra coisa.
No verso da fotografia, escrita à mão, havia uma frase:
“Para Clara, com carinho. Nunca se esqueça de mim.”
Ela virou-se lentamente.
— Daniel…
Ele não respondeu.
— Eu conheço essa mulher.
Daniel ficou imóvel.
— Quem é ela para você?
Silêncio.
— Daniel, quem é Helena?
Ele respirou fundo.
— Ela era…
Parou.
— Ela era o quê?
— Minha irmã.
Clara ficou sem entender.
— Sua irmã?
Daniel não respondeu.
Clara começou a perceber que havia alguma coisa muito errada.
— Você nunca me falou de nenhuma irmã.
— Porque ela morreu.
Clara arregalou os olhos.
— Então como ela pode estar grávida?
Daniel não respondeu.
E foi naquele momento que Clara percebeu que talvez tivesse cometido um erro.
Talvez a mulher das mensagens não fosse Helena.
Talvez Helena fosse apenas uma peça daquela história.
Ela voltou a olhar para o celular.
Havia uma nova mensagem.
Dessa vez, o número era desconhecido.
“Clara, não acredite em nada que Daniel disser. Ele não está traindo você com quem você pensa.”
Clara ficou paralisada.
Outra mensagem chegou.
“Se quiser descobrir toda a verdade, esteja amanhã às 19h no Café Central. Venha sozinha.”
E então veio a última.
Uma fotografia.
Clara abriu.
Era Daniel.
Mas ele não estava com Helena.
Estava abraçado com outra mulher.
Uma mulher que Clara conhecia muito bem.
Seu coração disparou.
Ela aproximou a imagem do rosto.
E finalmente entendeu.
Aquela traição não era apenas sobre Daniel.
Era sobre alguém muito próximo dela.
Alguém em quem ela confiava.
Alguém que conhecia todos os seus segredos.
Clara apagou rapidamente a tela quando Daniel se aproximou.
— O que aconteceu?
Ela guardou o celular no bolso.
— Nada.
Daniel a observou desconfiado.
— Você está diferente.
Clara sorriu.
Dessa vez, não havia lágrimas.
— Estou apenas começando a entender algumas coisas.
— Que coisas?
Ela caminhou até a porta.
— Amanhã eu descubro.
— Descobre o quê?
Clara olhou para ele pela última vez.
— Quem realmente está mentindo para mim.
E saiu.
Daniel ficou sozinho na sala.
Sem saber que Clara já havia descoberto uma parte da verdade.
Mas ele também não sabia de uma coisa.
A mulher da fotografia havia acabado de mandar uma mensagem para Clara.
E nela havia apenas cinco palavras:
“Eu sinto muito. Foi sem querer.”
Clara leu.
E respondeu:
“Então me conte tudo.”
Naquele instante, ela ainda não sabia que a resposta daquela mulher mudaria sua vida para sempre.

