A notícia que mudou tudo
Ana Júlia ficou paralisada.
Por alguns segundos, não conseguiu compreender as palavras de João Paulo.
O corpo de Helena havia sido encontrado na propriedade de Marcelo.
Era impossível.
Ou pelo menos era isso que ela queria acreditar.
— Você está mentindo — disse, quase num sussurro.
João Paulo balançou a cabeça.
— Eu gostaria que fosse mentira.
Laura permaneceu em silêncio, observando Ana Júlia.
— Quem encontrou o corpo? — perguntou ela.
— A polícia.
— Quando?
— Hoje pela manhã.
Ana Júlia sentiu as pernas fraquejarem.
Precisou se apoiar na mesa.
Tudo o que acreditava sobre o próprio casamento estava desaparecendo diante dos seus olhos.
Marcelo não era apenas o marido desconfiado que havia descoberto sua traição.
Agora existia a possibilidade de ele estar ligado ao desaparecimento de uma mulher.
E aquela mulher era Helena.
— Por que você nunca me contou que conhecia meu marido? — perguntou Ana Júlia a João Paulo.
Ele abaixou os olhos.
— Porque eu sabia que, quando você descobrisse, iria embora.
— Então você mentiu para mim.
— Eu omiti.
Ana Júlia soltou uma risada nervosa.
— Isso é mentira também.
João Paulo tentou se aproximar.
Ela recuou.
— Não encoste em mim.
Ele parou.
Naquele instante, Ana Júlia já não sabia em quem confiar.
A chegada da polícia
O som de sirenes interrompeu o silêncio.
Dois carros entraram na propriedade.
Laura imediatamente guardou as fotografias.
João Paulo olhou para Ana Júlia.
— Você precisa ficar aqui.
— Por quê?
— Porque eles vão fazer perguntas.
— E eu vou responder.
Os policiais desceram dos veículos acompanhados por um homem de terno escuro.
Ele se aproximou de João Paulo.
— Senhor João Paulo?
— Sim.
— Precisamos conversar com o senhor.
O policial olhou para Ana Júlia.
— E a senhora?
Ela respirou fundo.
— Ana Júlia.
O homem ficou sério.
— A senhora conhece Marcelo?
— É meu marido.
O policial trocou um olhar com o colega.
— Precisamos que a senhora nos acompanhe também.
Ana Júlia sentiu o coração disparar.
— Por quê?
O policial abriu uma pasta.
— Porque o nome da senhora apareceu nas investigações.
João Paulo ficou tenso.
— O que isso significa?
— Significa que precisamos fazer algumas perguntas.
Ana Júlia sentiu um frio na barriga.
Seu nome nas investigações?
Ela sequer conhecia Helena.
Ou pensava que não conhecia.
A fotografia escondida
Enquanto os policiais conversavam com João Paulo, Laura puxou Ana Júlia discretamente para o lado.
— Você precisa saber de uma coisa.
— O quê?
Laura tirou uma pequena fotografia do bolso.
— Eu encontrei isso entre os pertences de Helena.
Ana Júlia pegou a foto.
Era antiga.
Mostrava Helena segurando uma criança.
No fundo aparecia uma casa.
Ana Júlia reconheceu imediatamente.
Era a casa onde ela morava com Marcelo.
— Essa fotografia foi tirada aqui?
Laura assentiu.
— Sim.
— Quando?
— Poucos meses antes de Helena desaparecer.
Ana Júlia ficou olhando para a imagem.
— Quem é essa criança?
Laura respirou fundo.
— A filha dela.
— Mas você disse que Helena deixou uma filha.
— Eu disse.
— Onde ela está agora?
Laura demorou a responder.
— Com uma família adotiva.
Ana Júlia sentiu um aperto no peito.
— E por que isso é importante para mim?
Laura encarou-a.
— Porque Helena dizia que aquela criança tinha um pai.
— Quem?
Laura não respondeu.
Ana Júlia insistiu:
— Quem é o pai?
Antes que Laura pudesse falar, um policial se aproximou.
— Senhora Ana Júlia, precisamos conversar.
Laura guardou a fotografia.
— Não conte nada sem pensar.
Ana Júlia olhou para ela.
— Por quê?
Laura apenas respondeu:
— Porque talvez você esteja no meio de uma história que começou muito antes de você conhecer qualquer um deles.
Marcelo aparece
O interrogatório não chegou a acontecer.
Um carro preto entrou na fazenda em alta velocidade.
Ana Júlia reconheceu o veículo imediatamente.
Era Marcelo.
Ele saiu do carro furioso.
— Ana Júlia!
Ela congelou.
Marcelo caminhou até ela.
— O que você está fazendo aqui?
Ela não respondeu.
Ele olhou para João Paulo.
Depois para Laura.
Por último, voltou os olhos para a esposa.
— Você me traiu.
Ana Júlia sentiu as lágrimas chegarem.
— Marcelo…
— Não diga meu nome!
Todos ficaram em silêncio.
Marcelo aproximou-se.
— Eu confiava em você.
— Você também mentiu para mim.
Ele parou.
— O que você está falando?
Ana Júlia ergueu a voz:
— Helena!
O rosto de Marcelo mudou.
Foi apenas por um segundo.
Mas Ana Júlia percebeu.
Ele ficou pálido.
— Quem colocou esse nome na sua cabeça?
— Então você conhece Helena.
Marcelo olhou para João Paulo.
— Foi ele?
João Paulo não respondeu.
— Foi ele que contou?
Ana Júlia avançou.
— Você conhecia Helena?
Marcelo respirou fundo.
— Isso não é assunto para você.
— É sim!
— Não sabe do que está falando.
— Encontraram o corpo dela na nossa propriedade!
Marcelo ficou imóvel.
O silêncio que se seguiu foi assustador.
A acusação
Um dos policiais se aproximou.
— Senhor Marcelo, o senhor está sendo chamado para prestar esclarecimentos.
Marcelo virou-se.
— Eu não fiz nada.
— Ninguém disse que fez.
— Mas estão pensando isso.
O policial permaneceu sério.
— O senhor será ouvido.
Marcelo olhou para Ana Júlia.
— Você acredita que eu matei alguém?
Ela não respondeu.
Porque, naquele momento, já não sabia.
Marcelo então falou:
— Ana Júlia, você cometeu um erro. Mas não permita que João Paulo destrua sua vida.
João Paulo deu um passo à frente.
— Não coloque meu nome nisso.
Marcelo riu.
— Você sempre foi bom em esconder seus segredos.
Ana Júlia olhou para João Paulo.
— Que segredos?
João Paulo permaneceu calado.
Marcelo foi levado pelos policiais.
Antes de entrar no carro, porém, virou-se para Ana Júlia.
— Quando descobrir toda a verdade, você vai se arrepender de ter confiado nele.
O carro partiu.
Ana Júlia ficou olhando até desaparecer na estrada.
O segredo de João Paulo
Ela se virou lentamente para João Paulo.
— Agora você vai me contar.
Ele sabia exatamente o que ela queria saber.
— Ana Júlia…
— Nada de Ana Júlia.
Ela se aproximou.
— Quem é você?
João Paulo respirou fundo.
— Eu amava Helena.
Ana Júlia sentiu o coração apertar.
— Você disse que ela era apenas uma conhecida.
— Eu menti.
— Por quê?
— Porque tive medo de perder você.
Ana Júlia fechou os olhos.
— Vocês tiveram um relacionamento?
— Sim.
— E a criança?
João Paulo não respondeu.
— A criança é sua?
Ele abaixou a cabeça.
O silêncio foi a resposta.
Ana Júlia recuou.
— Meu Deus…
— Eu não sabia que Helena estava grávida.
— Você acredita que eu vou acreditar nisso?
— É a verdade.
— E Marcelo?
João Paulo olhou para a estrada.
— Marcelo descobriu tudo.
— O quê?
— Descobriu que Helena estava grávida de mim.
Ana Júlia levou a mão à boca.
— E depois?
João Paulo demorou.
— Depois disso, ela desapareceu.
A última mensagem de Helena
Laura aproximou-se.
— João, já chega.
Ele olhou para ela.
— Ela precisa saber.
Laura tirou o celular da bolsa.
— Então mostre.
João Paulo hesitou.
Ana Júlia percebeu.
— Mostre o quê?
Laura entregou o aparelho.
— A última mensagem que Helena enviou para João Paulo.
Ana Júlia leu.
A mensagem dizia:
“Se alguma coisa acontecer comigo, procure Marcelo. Ele sabe onde está minha filha.”
Ana Júlia sentiu o mundo girar.
— Quando ela enviou isso?
— Na noite em que desapareceu — respondeu Laura.
— E por que você nunca entregou essa mensagem à polícia?
João Paulo ficou em silêncio.
Ana Júlia levantou os olhos.
— Por quê?
— Porque eu tive medo.
— Medo de quê?
Ele respondeu:
— De que a culpa caísse sobre mim.
Ana Júlia não conseguiu acreditar.
O homem por quem havia colocado seu casamento em risco estava diante dela escondendo informações sobre uma mulher desaparecida.
E talvez tivesse muito mais a esconder.
Uma nova ameaça
Naquela noite, Ana Júlia voltou para casa sozinha.
Marcelo ainda estava na delegacia.
A casa parecia diferente.
Mais fria.
Mais escura.
Ela entrou no quarto e sentou-se na cama.
Então ouviu um barulho vindo da sala.
Levantou-se.
— Marcelo?
Ninguém respondeu.
Ana Júlia caminhou lentamente pelo corredor.
A porta da sala estava aberta.
Sobre a mesa havia um envelope.
Ela se aproximou.
Não havia nome.
Apenas uma frase escrita à mão:
“Você quer saber a verdade? Comece pelo quarto que Marcelo mantém trancado.”
Ana Júlia sentiu um arrepio.
O quarto.
Ela sabia exatamente qual era.
Durante anos, Marcelo havia mantido uma pequena sala trancada no fundo da casa.
Sempre dizia que guardava documentos importantes ali.
Ela nunca havia insistido.
Agora, porém, precisava saber.
Pegou a chave que Marcelo escondia dentro de uma gaveta.
Com as mãos tremendo, caminhou até a porta.
Colocou a chave na fechadura.
Girou.
A porta se abriu.
Ana Júlia acendeu a luz.
E ficou sem respirar.
Nas paredes havia fotografias.
De Helena.
De João Paulo.
De Marcelo.
E, entre todas elas, havia uma fotografia de Ana Júlia.
Mas aquela fotografia tinha sido tirada antes mesmo de ela conhecer Marcelo.
No centro da parede, havia uma última imagem.
Uma menina pequena.
A mesma menina que Laura mostrara na fotografia.
No verso estava escrito:
“A filha de Helena está viva.”
Ana Júlia levou a mão à boca.
Então ouviu passos atrás dela.
Uma voz masculina sussurrou:
— Você não deveria ter aberto essa porta.
Ana Júlia virou-se lentamente.
E reconheceu o homem.
Era alguém que ela jamais imaginaria encontrar ali.

