O homem que despertava seu pior lado
Quando Isadora entrou naquele restaurante, a última coisa que esperava era encontrar Gabriel sentado à mesa com outra mulher.
Ela parou na porta.
Por alguns segundos, esqueceu até mesmo por que havia ido ali.
Gabriel estava de costas, usando uma camisa branca com as mangas dobradas até os braços. Tinha aquele jeito tranquilo que sempre fazia o coração dela disparar — o mesmo homem que, há três meses, havia prometido que não existiria mais ninguém entre os dois.
Mas havia.
Uma mulher loira estava sentada diante dele.
E sorria.
Isadora sentiu o sangue ferver.
O pior não era a mulher.
Era a mão de Gabriel sobre a mesa, tão próxima da dela.
— Então era isso… — murmurou.
Ela virou-se para sair.
Mas Gabriel a viu.
— Isadora!
Ela continuou andando.
— Isadora, espere!
Ele levantou-se e veio atrás dela.
Quando alcançou a calçada, segurou seu braço.
— O que aconteceu?
Ela se soltou.
— Nada.
— Você está com raiva.
— Eu? Imagina.
— Então por que está indo embora?
Isadora riu.
— Porque não quero atrapalhar seu jantar.
Gabriel olhou para ela, confuso.
— Meu jantar?
— Sim. Com sua amiga.
— Ela não é minha amiga.
— Ah, não?
— Não.
— Então quem é?
Gabriel respirou fundo.
— Minha advogada.
Isadora cruzou os braços.
— Sua advogada?
— Sim.
— E precisava olhar para ela daquele jeito?
Gabriel ficou sério.
— Que jeito?
— Aquele jeito que você olha para mim.
Ele se aproximou.
— Você está com ciúmes?
— Não.
— Está.
— Não estou.
Gabriel sorriu.
— Está morrendo de ciúmes.
Isadora apontou o dedo para ele.
— Não se atreva a achar isso bonito.
— Eu acho.
— Pois eu não acho.
— Por quê?
Ela hesitou.
— Porque quando eu sinto ciúmes, faço coisas das quais me arrependo.
Gabriel ficou sério.
— O que você faria?
Isadora olhou para a janela do restaurante.
— Melhor não descobrir.
Um amor complicado
Os dois se conheceram seis meses antes.
Gabriel era dono de uma grande empresa de arquitetura.
Isadora trabalhava em uma pequena agência de publicidade.
O primeiro encontro havia sido um desastre.
Ela derramou café na camisa dele.
Ele ficou irritado.
Ela ficou irritada porque ele ficou irritado.
E, naquela mesma noite, os dois acabaram discutindo durante quase uma hora.
No dia seguinte, Gabriel apareceu na agência para contratar os serviços dela.
— Você de novo? — Isadora perguntou.
— Parece que o destino gosta de me irritar.
— O sentimento é recíproco.
Ele sorriu.
— Preciso de você.
Ela levantou uma sobrancelha.
— Profissionalmente?
— Por enquanto.
Foi assim que tudo começou.
Discussões.
Provocações.
Olhares demorados.
Até que uma noite, depois de uma reunião, ficaram presos no elevador.
Gabriel olhou para ela.
— Você sabe que me irrita muito?
— Você também.
— Então por que eu quero beijar você?
Isadora não respondeu.
Apenas se aproximou.
O primeiro beijo mudou tudo.
Depois vieram os encontros escondidos.
As mensagens de madrugada.
Os ciúmes.
As brigas.
As reconciliações.
E uma paixão que nenhum dos dois conseguia controlar.
Mas Gabriel tinha uma característica que Isadora odiava.
Ele era extremamente ciumento.
E ela não ficava atrás.
A mulher do restaurante
— Vamos voltar — disse Gabriel.
— Não.
— Isadora.
— Você está ocupado.
— Eu estava resolvendo uma questão jurídica.
— Com uma mulher linda.
— Ela é casada.
— Isso não significa nada.
Gabriel ficou olhando para ela.
— Você realmente acha que eu faria alguma coisa?
Isadora desviou o olhar.
— Não sei.
— Depois de tudo que vivemos?
— Eu tenho medo.
Ele se aproximou.
— Medo de quê?
Ela respirou fundo.
— De gostar demais de você.
Gabriel ficou em silêncio.
— Porque quando eu gosto de alguém, eu fico vulnerável.
Ele tocou o rosto dela.
— Eu também.
Isadora olhou para ele.
— Você?
— Eu tenho ciúmes de qualquer homem que olha para você.
Ela sorriu.
— Isso não é romântico.
— Eu sei.
— É possessivo.
Gabriel abaixou a mão.
— Então me diga onde termina o amor e começa a loucura.
Ela não respondeu.
Porque também não sabia.
A festa
Naquela noite, Gabriel insistiu que Isadora fosse com ele a uma festa de empresários.
Ela não queria.
— Eu não gosto dessas festas.
— Eu quero você comigo.
— Vai ter um monte de mulheres bonitas.
— E?
— E você vai ficar olhando.
Gabriel sorriu.
— Só existe uma mulher que me interessa.
— Quem?
— Você.
Ela fingiu não acreditar.
— Convencido.
— Ciumenta.
— Idiota.
— Linda.
Ela tentou segurar o sorriso.
Não conseguiu.
Horas depois, chegaram à festa.
Tudo estava perfeito.
Música baixa.
Luzes suaves.
Taças de vinho.
Pessoas bem vestidas.
Gabriel segurou a mão de Isadora.
— Não solte.
Ela riu.
— Por quê?
— Porque vou ficar com ciúmes.
— De quem?
— De todo mundo.
Ela apertou a mão dele.
— Então fique perto.
Durante algum tempo, tudo correu bem.
Até que um homem se aproximou.
— Isadora?
Ela se virou.
— Daniel!
Gabriel imediatamente ficou sério.
Daniel era um antigo colega de faculdade.
— Quanto tempo!
Ele abraçou Isadora.
Gabriel observou.
O sorriso desapareceu.
— Gabriel, esse é Daniel.
Daniel estendeu a mão.
— Prazer.
Gabriel apertou.
— Igualmente.
Mas seu olhar não era amigável.
Daniel percebeu.
— Vocês estão juntos?
Isadora respondeu:
— Sim.
— Não sabia.
— Agora sabe.
Gabriel colocou a mão na cintura dela.
Daniel sorriu.
— Você sempre foi muito disputada.
Gabriel apertou a cintura de Isadora.
— Ela continua sendo.
Daniel riu.
— Bom saber.
Quando ele saiu, Isadora olhou para Gabriel.
— Não precisava fazer isso.
— Fazer o quê?
— Me segurar daquele jeito.
— Ele estava dando em cima de você.
— E daí?
— E daí que eu não gostei.
Ela cruzou os braços.
— Você não pode decidir quem pode falar comigo.
— Eu sei.
— Então se controle.
Gabriel ficou em silêncio.
— Você tem razão.
Isadora ficou surpresa.
— Tem mesmo?
— Tenho.
Ele respirou fundo.
— Desculpe.
Ela sorriu.
— Está melhorando.
O ciúme dela
Mais tarde, Gabriel foi chamado para conversar com alguns investidores.
Isadora ficou sozinha.
Então uma mulher se aproximou.
— Você é a namorada do Gabriel?
— Sou.
— Interessante.
Isadora percebeu o tom.
— Por quê?
A mulher sorriu.
— Porque ele nunca fica muito tempo com ninguém.
Isadora sentiu um desconforto.
— Talvez porque ainda não tivesse encontrado a pessoa certa.
A mulher levantou a sobrancelha.
— Você parece muito segura.
— Sou.
— Mesmo?
Isadora sorriu.
— Absolutamente.
A mulher saiu.
Mas aquelas palavras ficaram na cabeça dela.
Quando Gabriel voltou, Isadora estava diferente.
— Vamos embora.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Você está mentindo.
— Não estou.
Ele segurou a mão dela.
— Fala comigo.
— Aquela mulher disse que você nunca fica muito tempo com ninguém.
Gabriel suspirou.
— Ela é uma ex.
Isadora ficou imóvel.
— Sua ex?
— Sim.
— E por que ela está aqui?
— Porque trabalha com um dos investidores.
— Vocês terminaram quando?
— Há três anos.
— E ela ainda gosta de você?
Gabriel olhou para ela.
— Não sei.
Isadora desviou o olhar.
— Ela gosta.
— Isadora…
— Não precisa explicar.
— Preciso.
Ele segurou seu rosto.
— Eu não quero aquela mulher.
— Então quem você quer?
Gabriel aproximou-se.
— Você.
— Só eu?
— Só você.
Ela respirou fundo.
— Promete?
— Prometo.
Uma noite de paixão
De volta ao apartamento de Gabriel, os dois ficaram em silêncio.
Isadora tirou os sapatos.
— Você me deixou com ciúmes.
— Você me deixou com ciúmes primeiro.
— Então estamos quites.
Gabriel sorriu.
— Ainda não.
— Por quê?
Ele se aproximou.
— Porque você ainda está brava.
— Talvez.
— E como resolvemos isso?
Ela olhou para ele.
— Não sei.
Gabriel segurou sua mão.
— Eu sei.
O beijo começou devagar.
Depois se tornou intenso.
Toda a raiva se transformou em desejo.
Isadora segurou o rosto dele.
— Você me enlouquece.
— Você também.
— Às vezes eu acho que não deveria amar você.
Ele parou.
— Não diga isso.
— Por quê?
— Porque eu não sei viver sem você.
Ela ficou emocionada.
— Gabriel…
— Eu sei que somos complicados.
— Muito.
— Sei que brigamos.
— Muito.
— E que somos ciumentos.
Ela riu.
— Demais.
Ele encostou a testa na dela.
— Mas eu nunca senti isso por ninguém.
Isadora o abraçou.
— Nem eu.
Naquela noite, os dois adormeceram juntos.
Mas a paz duraria pouco.
A mensagem
Na manhã seguinte, Isadora acordou antes de Gabriel.
Pegou o celular.
Havia uma mensagem de um número desconhecido.
“Você realmente acredita que Gabriel é fiel?”
Ela franziu a testa.
Outra mensagem chegou.
“Pergunte a ele sobre Marina.”
Isadora sentiu um frio na barriga.
Marina.
A ex.
Ela apagou a mensagem.
Não queria começar outra briga.
Mas poucos minutos depois, recebeu uma fotografia.
Gabriel aparecia em um aeroporto.
Ao lado de Marina.
Os dois estavam muito próximos.
A fotografia parecia recente.
Isadora ficou imóvel.
— Não…
Gabriel acordou.
— O que aconteceu?
Ela guardou o celular.
— Nada.
— Você está pálida.
— Estou bem.
Ele se aproximou.
— Isadora.
Ela olhou para ele.
— Quem é Marina?
Gabriel ficou completamente imóvel.
O silêncio foi suficiente para responder.
— Eu sabia — sussurrou ela.
— Não é o que você está pensando.
— Então me diga o que é.
— Eu posso explicar.
— Explique.
Gabriel passou a mão pelos cabelos.
— Ela me procurou há duas semanas.
— Por quê?
— Porque precisava de ajuda.
— Para quê?
Ele não respondeu.
Isadora sentiu as lágrimas.
— Você mentiu para mim.
— Não.
— Então por que escondeu?
— Porque sabia que você ficaria assim.
— Assim como?
— Com ciúmes.
Ela riu, mas estava chorando.
— Você sabia que eu ficaria com ciúmes porque tinha alguma coisa para esconder.
Gabriel aproximou-se.
— Não aconteceu nada.
— Eu quero acreditar.
— Então acredite em mim.
Ela olhou para a fotografia novamente.
— Eu quero.
— Então?
Isadora levantou os olhos.
— Mas preciso saber a verdade.
Gabriel ficou em silêncio.
Ela percebeu que aquela história era muito maior do que imaginava.
O segredo de Marina
— Ela está grávida — disse Gabriel finalmente.
Isadora sentiu o chão desaparecer.
— Grávida?
— Sim.
— E você é o pai?
Gabriel não respondeu imediatamente.
Aquele segundo de silêncio foi suficiente para destruir o mundo de Isadora.
— Gabriel…
Ele segurou a mão dela.
— Eu não sei.
— Como assim não sabe?
— Marina diz que o filho é meu.
Isadora soltou a mão dele.
— E você não sabe?
— Não.
— Vocês ficaram juntos depois que terminamos?
— Não.
— Então?
Gabriel respirou fundo.
— Antes de conhecer você, eu tive uma última noite com ela.
Isadora ficou em silêncio.
— Quando?
— Pouco antes de conhecer você.
Ela sentiu as lágrimas caírem.
— Então existe uma possibilidade de você ter um filho.
— Sim.
— E você não me contou.
— Eu queria confirmar primeiro.
— Há quanto tempo sabe?
— Duas semanas.
Ela fechou os olhos.
— Duas semanas…
Gabriel tentou abraçá-la.
Ela recuou.
— Não.
— Isadora.
— Eu preciso ficar sozinha.
— Não vá.
Ela pegou a bolsa.
— Eu preciso pensar.
— Você vai voltar?
Isadora parou junto à porta.
Olhou para ele.
— Eu não sei.
Saiu.
Gabriel ficou parado.
Pela primeira vez desde que conhecera Isadora, sentiu medo de verdade.
Não de perdê-la para outro homem.
Mas de perdê-la para uma verdade que nem ele conhecia.
Do lado de fora, Isadora entrou no carro.
As lágrimas não paravam.
Seu telefone vibrou novamente.
Era uma mensagem do mesmo número desconhecido.
“Agora você sabe por que ele nunca contou. Mas ainda não sabe a pior parte.”
Isadora abriu a mensagem seguinte.
Havia apenas uma fotografia.
Nela, Gabriel aparecia abraçado a Marina.
Mas dessa vez havia uma data.
Duas semanas antes.
Isadora ficou olhando para a imagem.
Seu coração se despedaçou.
Porque aquela fotografia não havia sido tirada antes de ela conhecer Gabriel.
Era recente.
Muito recente.
E, se aquilo fosse verdade, significava que Gabriel havia mentido para ela.
Mas, antes que pudesse reagir, outra mensagem chegou:
“Se quiser descobrir a verdade, venha sozinha amanhã à noite. E não conte a Gabriel.”
Isadora apertou o celular.
O amor que sentia por ele era enorme.
Mas o ciúme, a dúvida e o medo começavam a ser ainda maiores.
E ela ainda não sabia que aquela fotografia escondia uma mentira muito mais perigosa do que uma traição.
Porque Marina não estava tentando recuperar Gabriel.
Ela estava tentando destruir o amor dos dois.
E, para conseguir isso, estava disposta a revelar um segredo que poderia mudar tudo.
Continua no Capítulo 2 — Final.

