Entre a Honra e o Desejo — Capítulo 4

A fotografia que destruiu a confiança

Carolina permaneceu diante da fotografia durante vários segundos.

O general Augusto Montenegro aparecia nela ao lado de Henrique Vasconcelos e de um terceiro homem.

No verso, havia uma frase:

“Agora escolha em quem você vai acreditar.”

Carolina sentiu a garganta fechar.

— Quero uma explicação.

Augusto olhou para a fotografia.

— Onde conseguiu isso?

— Não importa. Meu pai desconfiava do senhor. Henrique diz que o senhor estava envolvido. Agora encontro uma fotografia sua ao lado do homem que pode ter ordenado a morte do meu pai. O que eu deveria pensar?

— Que a fotografia não mostra toda a verdade.

— Então me conte.

Augusto respirou fundo.

— Eu estava infiltrado.

Carolina balançou a cabeça.

— Essa resposta já não basta.

— Eu precisava me aproximar deles para descobrir quem comandava a organização.

— E meu pai?

— Seu pai descobriu parte da operação.

— E o senhor não contou a ele?

Augusto abaixou os olhos.

— Não podia.

Carolina sentiu as lágrimas surgirem.

— Ele morreu sem saber de que lado você estava.

— Sim.

— E eu passei anos acreditando que o senhor era um homem honrado.

Augusto levantou os olhos.

— Eu nunca deixei de ser.

— Então prove.

A morte de Henrique

Antes que Augusto pudesse responder, o telefone tocou.

Ele atendeu.

— Montenegro.

Ouviu por alguns segundos.

Seu rosto ficou sério.

— Entendido.

Desligou.

Carolina percebeu.

— O que aconteceu?

— Henrique foi encontrado.

— Onde?

— Morto.

Carolina ficou imóvel.

— Morto?

Augusto assentiu.

— E deixaram uma mensagem.

— Para quem?

Ele olhou para ela.

— Para você.

Augusto tirou um papel do bolso.

Carolina leu:

“Seu pai confiou no homem errado. Você também.”

Ela amassou o papel.

— Estão tentando me colocar contra o senhor.

— Sim.

— Mas como sabem tudo sobre mim?

Augusto ficou sério.

— Porque alguém dentro do comando está fornecendo informações.

— Então ainda existe um traidor.

— E agora ele sabe que você descobriu a verdade.

Carolina olhou para a porta.

— Eu preciso sair daqui.

Augusto segurou seu braço.

— Não.

— Por quê?

— Porque se você sair sozinha, será um alvo.

— E se eu ficar?

— Eu protejo você.

Carolina puxou o braço.

— Não quero que me proteja.

Augusto a encarou.

— Então deixe-me lutar ao seu lado.

Ela ficou em silêncio.

A sala proibida

Augusto levou Carolina para uma parte antiga do quartel.

Um corredor pouco utilizado terminava diante de uma porta de metal.

Ele tirou uma chave.

— O que existe aqui?

— Os arquivos das operações antigas.

— E por que estamos entrando?

— Porque seu pai deixou uma coisa escondida.

A porta abriu.

O ambiente estava cheio de caixas.

Augusto caminhou até uma delas.

— Procure pelo ano em que seu pai morreu.

Carolina encontrou uma pasta.

Na capa estava escrito:

CAPITÃO EDUARDO ALMEIDA.

Seu pai.

Ela abriu.

Entre relatórios, mapas e fotografias, encontrou um documento assinado por Augusto.

“O capitão Eduardo Almeida descobriu a existência de uma organização clandestina dentro da estrutura militar. Recomendo que sua investigação seja interrompida imediatamente, para preservar sua segurança.”

Carolina ergueu os olhos.

— O senhor tentou impedir meu pai?

— Sim.

— Por quê?

— Porque eu sabia que ele estava sendo observado.

— Então por que ele continuou?

Augusto respondeu:

— Porque era seu pai.

Carolina ficou em silêncio.

Naquele momento, percebeu que o pai havia enfrentado tudo pensando nela.

O nome escondido

Entre os documentos, Carolina encontrou uma lista.

No final havia um nome circulado:

General Álvaro Siqueira.

— Quem é ele?

— Um antigo comandante.

— Está vivo?

— Está.

— Onde?

— Atualmente, é assessor especial do alto comando.

Carolina sentiu o estômago apertar.

— Então ele está dentro do Exército.

— Sim.

— E meu pai investigava ele?

— Provavelmente.

Carolina fechou a pasta.

— Precisamos falar com ele.

— Não.

— Por quê?

— Porque não sabemos se podemos confiar nele.

Carolina olhou para Augusto.

— E você quer que eu confie em você?

Ele ficou em silêncio.

— Está vendo?

— Eu sei.

— Estamos cercados de pessoas em quem não podemos confiar.

Augusto aproximou-se.

— Mas existe uma diferença.

— Qual?

— Eu estou aqui.

Carolina sustentou o olhar.

— E talvez esse seja o problema.

A armadilha

Naquela noite, Carolina recebeu uma mensagem:

“Se quer saber quem matou seu pai, venha sozinha ao antigo campo de treinamento.”

Ela mostrou o telefone a Augusto.

— Você não vai.

— Vou.

— É uma armadilha.

— Justamente por isso preciso ir.

— Passei a vida inteira sem respostas. Agora tenho uma chance.

Augusto segurou os ombros dela.

— E eu não vou permitir que você entre numa armadilha.

— Você não manda em mim fora de uma missão.

— Carolina…

— Eu vou.

Augusto respirou fundo.

— Então eu vou com você.

— Mas pediram que eu fosse sozinha.

— E você não vai obedecer a essa parte.

Ela quase sorriu.

— Isso é bem típico do general.

— E você é bem típica quando decide fazer alguma coisa perigosa.

O encontro no campo

O antigo campo de treinamento estava abandonado.

A chuva começava a cair.

Carolina e Augusto chegaram escondidos.

Não havia ninguém.

Então uma voz surgiu dos alto-falantes:

— Boa noite, soldado Carolina.

Ela reconheceu a voz.

— Álvaro.

Um homem apareceu no alto de uma estrutura.

General Álvaro Siqueira.

— Seu pai cometeu um erro — disse ele.

— Qual?

— Confiou no homem errado.

Carolina olhou para Augusto.

Álvaro percebeu.

— Ainda acredita nele?

— Diga a verdade — exigiu Carolina.

Álvaro abriu uma pasta.

— Seu pai não morreu porque descobriu quem estava por trás da organização.

Carolina prendeu a respiração.

— Então por quê?

— Porque descobriu quem estava protegendo você.

Ela franziu a testa.

— Quem?

Álvaro olhou para Augusto.

— Ele.

Carolina ficou confusa.

— Augusto?

Álvaro assentiu.

— Seu pai descobriu que Augusto havia se infiltrado na organização. E decidiu ajudá-lo.

Carolina respirou fundo.

— Então meu pai confiava nele?

— No começo, sim.

— E depois?

Álvaro sorriu.

— Depois ele descobriu que Augusto havia escondido uma informação.

Augusto ficou imóvel.

— Que informação? — perguntou Carolina.

Álvaro respondeu:

— Seu pai descobriu que você estava sendo observada desde criança.

Carolina sentiu um arrepio.

— Por quê?

Álvaro olhou diretamente para ela.

— Porque você é filha de alguém que a organização queria encontrar.

— Quem?

Silêncio.

Augusto fechou os olhos.

— Não faça isso.

Álvaro continuou:

— Sua mãe.

O segredo da mãe

Carolina sentiu as pernas enfraquecerem.

— Minha mãe?

— Ela não era quem você pensava.

Augusto interveio:

— Ela não fazia parte deles.

— Não — concordou Álvaro. — Ela lutava contra eles.

Carolina respirou aliviada.

Mas Álvaro continuou:

— E deixou algo antes de morrer.

— O quê?

— Uma lista.

— Que lista?

— Os nomes de todas as pessoas envolvidas.

Carolina sentiu o coração acelerar.

— Onde está?

Álvaro sorriu.

— Com você.

Ela franziu a testa.

— Eu não tenho nenhuma lista.

Ele apontou para o colar que Carolina usava.

Ela tocou o pequeno pingente.

— Isso?

Augusto ficou pálido.

Carolina percebeu.

— O senhor sabia?

Augusto não respondeu.

Ela abriu o pingente.

Dentro havia um pequeno chip.

Carolina ficou em choque.

— O que é isso?

Augusto finalmente falou:

— A prova que seu pai passou anos tentando proteger.

Álvaro sorriu.

— Agora você entende por que todos querem você viva.

O disparo

Um tiro ecoou.

Álvaro caiu.

Carolina se abaixou.

Augusto puxou-a para trás de uma parede.

— Atirador!

— Quem atirou?

— Não sei.

Mais tiros atingiram a estrutura.

Álvaro havia desaparecido.

Carolina olhou para Augusto.

— Ele fugiu.

— Sim.

— E levou a pasta.

— Eu sei.

Ela segurou o pingente.

— Mas não levou isso.

Augusto olhou para ela.

— Precisamos sair.

— Não.

— Carolina!

— Agora eu quero encontrar quem está por trás de tudo.

Augusto segurou sua mão.

— E eu vou com você.

Ela olhou para ele.

— Mesmo depois de tudo?

— Principalmente depois de tudo.

Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio.

Carolina aproximou-se.

— Eu ainda não sei se consigo confiar totalmente em você.

Augusto assentiu.

— Eu sei.

— Mas não quero enfrentar isso sozinha.

Ele apertou a mão dela.

— Nunca mais.

O beijo proibido

A chuva aumentou.

Carolina olhou para Augusto.

— Se tudo isso acabar…

— O quê?

— Se sobrevivermos…

Ela hesitou.

— Quero saber quem você é quando não estiver usando esse uniforme.

Augusto sorriu.

— E eu quero saber quem você é quando não estiver tentando provar que é forte o tempo todo.

Carolina deu um passo à frente.

Dessa vez, nenhum dos dois recuou.

O beijo foi rápido, intenso e cheio de tudo aquilo que haviam tentado esconder.

Quando se afastaram, Augusto encostou a testa na dela.

— Isso foi um erro.

Carolina sorriu.

— Provavelmente.

— Podemos perder tudo.

— Talvez.

— E ainda assim…

— Ainda assim.

O rádio de Augusto começou a transmitir uma mensagem.

— General Montenegro, temos uma emergência.

Ele pegou o aparelho.

— Fale.

— O quartel foi invadido. O arquivo central foi roubado.

Augusto ficou sério.

— Por quem?

Silêncio.

Depois:

— Encontramos apenas uma mensagem.

Carolina aproximou-se.

— Qual?

A voz respondeu:

“A chave já está com vocês. Agora precisamos da soldado.”

Augusto desligou o rádio.

Carolina sentiu o medo voltar.

— Eles querem me capturar.

— Sim.

— Então vamos fazer com que me encontrem.

Augusto olhou para ela, surpreso.

— O quê?

Carolina segurou o pingente.

— Se sou a chave, vou descobrir qual porta ela abre.

O general sorriu.

— Agora você está pensando como uma comandante.

Mas nenhum dos dois sabia que, naquele mesmo momento, alguém observava os dois de longe.

E a pessoa que segurava a fotografia de Carolina não era Álvaro.

Era alguém em quem Augusto confiava profundamente.

Alguém que estava dentro do quartel.

Alguém que conhecia todos os passos deles.

E que já havia preparado a última armadilha.

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