ENTRE A HONRA E O DESEJO — CAPÍTULO 5 — FINAL

O traidor

Carolina permaneceu em silêncio enquanto observava o quartel à distância.

A chuva havia parado, mas o céu continuava escuro.

Ao lado dela, Augusto segurava o rádio.

— A invasão aconteceu há menos de vinte minutos — disse ele. — Quem entrou conhecia exatamente o caminho até o arquivo central.

Carolina apertou o pequeno pingente que trazia no pescoço.

— Então não foi alguém de fora.

— Não.

— Foi alguém daqui.

Augusto assentiu.

— Alguém com acesso aos arquivos, às câmeras e aos protocolos de segurança.

Carolina pensou por alguns segundos.

— Quem sabia que eu estava com você?

— Poucas pessoas.

— Quem?

Augusto começou a citar alguns nomes.

Carolina ouviu atentamente.

Então parou.

— General Augusto… e o coronel Daniel?

Augusto ficou imóvel.

— O que tem ele?

— Ele sabia que eu estaria naquela missão desde o começo.

— Sim.

— E foi ele quem nos orientou sobre a equipe desaparecida.

Augusto estreitou os olhos.

— Você acha que ele é o traidor?

— Não sei.

Uma voz surgiu atrás deles.

— Eu sei.

Os dois se viraram.

Era o coronel Daniel.

Ele estava parado a poucos metros, com as mãos levantadas.

— Não atirem.

Augusto apontou a arma.

— Afaste-se.

Daniel respirou fundo.

— Eu não sou o inimigo.

Carolina observou seu rosto.

— Então quem é?

Daniel olhou para Augusto.

— O homem que você mais confia.

Carolina sentiu um arrepio.

Augusto ficou em silêncio.

— Diga o nome — ordenou.

Daniel engoliu em seco.

— General Álvaro Siqueira.

A última prova

Daniel retirou um pequeno dispositivo do bolso.

— Encontrei isso escondido no sistema de segurança.

Augusto pegou.

— O que é?

— Uma gravação.

Carolina aproximou-se.

Daniel apertou um botão.

A voz de Álvaro surgiu.

— A soldado Carolina é a chave. O pingente precisa ser recuperado antes que Montenegro descubra o conteúdo.

Outra voz respondeu:

— E se ela resistir?

Álvaro respondeu:

— Então façam o necessário.

A gravação terminou.

Carolina sentiu o sangue gelar.

— Ele quer me matar.

— Não — disse Daniel. — Ele quer o que está dentro desse pingente.

Carolina abriu o medalhão.

O pequeno chip ainda estava lá.

— O que existe aqui?

Daniel respondeu:

— Uma lista de nomes, contas, documentos e provas de operações clandestinas realizadas durante anos.

Augusto olhou para Carolina.

— Seu pai conseguiu esconder tudo aqui.

— E minha mãe?

Daniel abaixou os olhos.

— Sua mãe ajudou a criar o sistema de proteção.

Carolina sentiu as lágrimas.

— Então ela também lutou contra eles.

— Até o fim.

A verdade sobre Augusto

Carolina virou-se para Augusto.

— Ainda existe uma coisa que não entendo.

— O quê?

— Por que meu pai escreveu que não sabia de que lado você estava?

Augusto ficou em silêncio.

Daniel respondeu:

— Porque Augusto precisou esconder a própria identidade.

Carolina franziu a testa.

— Ele era infiltrado.

— Sim.

— Mas por que meu pai desconfiava dele?

Daniel olhou para Augusto.

— Porque Augusto precisou fazer uma coisa terrível para manter o disfarce.

Carolina sentiu o coração acelerar.

— O quê?

Augusto finalmente falou:

— Eu entreguei seu pai.

Carolina ficou imóvel.

— O quê?

— Para que acreditassem que eu estava do lado deles, entreguei informações sobre a investigação dele.

— Você fez isso?

— Sim.

— Então foi por sua causa?

Augusto aproximou-se.

— Eu sabia que estavam observando seu pai. Entreguei apenas informações falsas.

Carolina ficou confusa.

— E ele sabia?

— Descobriu depois.

— Então por que não me contou?

— Porque se alguém descobrisse que nós dois estávamos trabalhando juntos, você seria a próxima vítima.

Carolina sentiu as lágrimas caírem.

— Meu pai morreu acreditando que você tentou protegê-lo.

Augusto assentiu.

— E eu nunca consegui me perdoar por não ter chegado a tempo.

Ela olhou para ele.

Pela primeira vez, compreendeu a culpa que ele carregava.

O confronto com Álvaro

Um alarme começou a tocar.

Daniel olhou para o rádio.

— Ele está aqui.

Augusto ficou alerta.

— Onde?

— No prédio principal.

Carolina segurou sua arma.

— Vamos.

— Não — disse Augusto.

— Não vai me deixar de fora novamente.

Ele a encarou.

— Dessa vez, não.

Os três entraram no quartel.

As luzes estavam apagadas.

Havia apenas o brilho vermelho das luzes de emergência.

Passaram pelo corredor dos arquivos.

Uma porta estava aberta.

Álvaro estava dentro.

Segurava uma pasta.

— Finalmente — disse ele.

Augusto apontou a arma.

— Acabou.

Álvaro sorriu.

— Você sempre foi sentimental demais, Montenegro.

Carolina avançou.

— O senhor matou meu pai?

Álvaro olhou para ela.

— Não.

— Mandou matá-lo?

Ele permaneceu em silêncio.

Carolina entendeu.

— Foi você.

Álvaro respondeu:

— Seu pai deveria ter ficado calado.

— E minha mãe?

— Também.

Carolina sentiu a raiva crescer.

— Ela só queria proteger a família.

— Ela queria destruir uma estrutura que levou décadas para ser construída.

Augusto deu um passo à frente.

— Você destruiu vidas por dinheiro e poder.

Álvaro riu.

— E você acha que foi diferente?

Augusto ficou imóvel.

— Eu fiz escolhas para proteger pessoas.

— Fez escolhas para proteger Carolina.

Álvaro olhou para ela.

— Foi isso que o tornou fraco.

Carolina respondeu:

— Não. Foi isso que tornou ele humano.

O disparo final

Álvaro levantou a arma.

Daniel reagiu primeiro.

Um disparo ecoou.

A arma de Álvaro caiu.

Ele levou a mão ao ombro e cambaleou.

Augusto avançou e o desarmou.

Carolina correu até ele.

— General!

Augusto estava ferido no braço.

— Estou bem.

— Você está sangrando.

— Já estive pior.

Ela segurou o rosto dele.

— Não faça isso comigo.

Augusto sorriu.

— Fazer o quê?

— Me assustar.

Ele segurou a mão dela.

— Você está com medo?

Carolina respirou fundo.

— Muito.

Álvaro, algemado, observava os dois.

— Isso vai destruir você, Montenegro.

Augusto respondeu:

— Não.

Olhou para Carolina.

— Ela me deu uma razão para continuar.

Álvaro foi levado.

Pela primeira vez em muitos anos, a organização estava desmoronando.

A verdade vem à tona

Nos dias seguintes, os documentos escondidos no pingente foram analisados.

Os nomes vieram à tona.

Oficiais, empresários e políticos envolvidos na rede foram investigados.

O nome do pai de Carolina foi finalmente limpo.

Ele não havia morrido por traição.

Morreu tentando impedir que a corrupção avançasse.

Sua mãe também recebeu o reconhecimento que nunca teve.

Carolina visitou o túmulo dos dois.

Levou flores.

Ficou alguns minutos em silêncio.

— Eu descobri a verdade — sussurrou.

As lágrimas escorreram.

— Demorei, mas descobri.

Augusto estava alguns metros atrás.

Não queria interromper aquele momento.

Quando Carolina terminou, aproximou-se.

— Posso?

Ela assentiu.

Os dois ficaram diante do túmulo.

— Seu pai teria orgulho de você — disse Augusto.

Carolina olhou para ele.

— E da gente?

Augusto sorriu.

— Acho que ele teria ficado preocupado.

Ela riu.

— Por quê?

— Porque eu sou seu superior.

— Não por muito tempo.

Augusto franziu a testa.

— O que isso significa?

Carolina entregou-lhe um envelope.

Ele abriu.

Era um pedido de transferência.

— Você vai sair da minha unidade?

— Vou.

Augusto ficou sério.

— Por quê?

— Porque quero que, quando estivermos juntos, não exista uma hierarquia entre nós.

Ele sorriu lentamente.

— Então você realmente pensou em nós.

Carolina respondeu:

— Pensei muito.

Depois da guerra

Seis meses se passaram.

Carolina terminou sua formação para uma nova função dentro do Exército.

Augusto continuou no comando, mas deixou de ser seu superior direto.

A investigação ainda estava acontecendo, mas o pior havia passado.

Em uma tarde de domingo, Carolina caminhava por um campo aberto quando ouviu passos.

Virou-se.

Augusto estava atrás dela.

Sem uniforme.

Usava apenas uma camisa clara e jeans.

Ela sorriu.

— Finalmente vejo o homem por trás do general.

Ele se aproximou.

— E o que acha?

Carolina fingiu pensar.

— Ainda estou avaliando.

— Depois de tudo isso?

— Preciso manter a reputação de mulher difícil.

Augusto riu.

— Você nunca foi difícil.

— Não?

— Foi impossível.

Ela sorriu.

— E mesmo assim ficou.

— Porque descobri que algumas pessoas valem o risco.

Carolina aproximou-se.

— Eu também descobri.

Ele segurou sua mão.

— Se pudesse voltar ao primeiro dia em que me conheceu, faria alguma coisa diferente?

Ela pensou.

— Talvez.

— O quê?

— Teria perguntado seu nome antes de começar a discutir com você.

Augusto riu.

— Você teria discutido de qualquer maneira.

— Provavelmente.

Os dois ficaram em silêncio.

O vento passava suavemente pelo campo.

Não havia tiros.

Não havia ordens.

Não havia segredos.

Apenas paz.

O novo começo

Carolina olhou para o horizonte.

— Sabe o que aprendi?

— O quê?

— Que honra não significa nunca errar.

Augusto ficou atento.

— Então o que significa?

— Significa ter coragem para reconhecer os erros e continuar lutando pelo que é certo.

Ele beijou sua testa.

— Seu pai teria gostado dessa resposta.

Carolina sorriu.

— E você?

— Eu tenho orgulho de você.

Ela o abraçou.

Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.

Tudo o que haviam enfrentado parecia distante.

As missões.

A conspiração.

A morte.

As dúvidas.

O medo.

Tudo havia deixado marcas.

Mas também havia deixado uma certeza.

O amor deles não nasceu em um momento tranquilo.

Nasceu em meio ao perigo.

Cresceu entre desconfianças.

Sobreviveu aos segredos.

E só se tornou verdadeiro quando ambos escolheram a honestidade.

Carolina levantou o rosto.

— Augusto.

— Sim?

— Você ainda se arrepende daquele primeiro beijo?

Ele sorriu.

— Não.

— Nem eu.

E se beijaram.

Dessa vez, sem esconderijo.

Sem medo.

Sem a distância entre general e soldado.

Apenas Augusto e Carolina.

Dois sobreviventes de uma guerra que quase destruiu tudo.

Mas que também lhes ensinou que algumas batalhas valem a pena.

E enquanto o sol desaparecia no horizonte, Carolina percebeu que finalmente havia encontrado aquilo que procurara durante toda a vida.

Não apenas a verdade sobre seu passado.

Não apenas justiça para seus pais.

Mas a liberdade de escolher o próprio futuro.

Ao lado do homem que um dia havia chamado de general.

E que agora chamava simplesmente de amor.

FIM

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