Entre o Luxo eo Giz

Capítulo 1 – O Olhar Que Não Esqueceu

O carro desacelerou quase sem que ele percebesse.

Paulo Montenegro não costumava prestar atenção em nada além de números, contratos e decisões que envolviam milhões. Sua rotina era fria, calculada e absolutamente previsível. Mas naquela tarde, algo rompeu esse padrão como um estilhaço de luz atravessando vidro escuro.

Ela.

Saía pelo portão de uma escola pública, com uma bolsa simples suspensa no ombro e os cabelos levemente bagunçados pelo vento. Não havia luxo, não havia maquiagem elaborada, não havia nada que, no mundo dele, fosse considerado extraordinário.

E ainda assim… ele não conseguiu desviar o olhar.

— Quem é ela? — murmurou, mais para si mesmo do que para o motorista.

O carro já tinha passado alguns metros quando ele virou o rosto para trás, tentando capturar mais um detalhe, qualquer coisa que o ajudasse a guardar aquela imagem.

Tarde demais.

Ela havia desaparecido entre as pessoas comuns, como se nunca tivesse existido.

Mas para ele… já era impossível esquecê-la.

Do outro lado da cidade, Ana Clara caminhava sem imaginar que tinha sido vista como nunca antes na vida.

Seu dia tinha sido longo. Alunos agitados, cadernos para corrigir, reuniões cansativas. Nada diferente do habitual. Ela suspirou, ajustando a bolsa no ombro, pensando apenas em chegar em casa, tomar um banho e tentar desligar a mente.

A vida dela era simples — e dura.

Morava sozinho, pagava contas com dificuldade e carregava uma responsabilidade que ia além da sala de aula. Para Ana, ensinar não era apenas profissão… era missão.

Mas ninguém via isso.

Ninguém realmente olhou para ela.

Ou pelo menos… era o que ela acreditava.

Naquela mesma noite, Paulo não conseguiu trabalhar.

Sentado em seu escritório sofisticado, com vista para a cidade iluminada, ele ignorava relatórios, ligações e mensagens urgentes. A imagem dela voltava repetidamente à sua mente.

Simples.

Natural.

Intocável.

— Isso é ridículo… — ele passou a mão pelo rosto, incomodado consigo mesmo.

Ele já tinha visto mulheres muito mais bonitas. Modelos, empresárias, influenciadas… mulheres que se encaixavam perfeitamente no mundo dele.

Mas não tinha feito aquilo.

Sinta estranho.

Quase incômoda.

Quase…

— Eu preciso saber quem ela é.

A decisão veio como um impulso — algo raro para alguém tão racional.

— Amanhã, falamos naquele mesmo horário.

O médico apenas assentiu.

No dia seguinte, Paulo estava lá.

Pontualmente.

O carro estacionado discretamente a uma distância segura da escola. Ele observou o movimento com atenção, como se estivesse prestes a fechar um negócio importante.

Mas aquilo não era um negócio.

Era algo muito mais perigoso.

Minutos se.

Nada.

Ele franziu o cenho, impaciente.

— Talvez eu tenha me enganado…

Mas então…

Ela apareceu.

Exatamente como no dia anterior.

Caminhando com pressa, os cabelos presos de forma improvisada, o olhar levemente cansado… e ainda assim, havia algo nela que o prendia de um jeito quase absurdo.

Paulo sentiu o corpo reagir antes mesmo de entender.

O coração acelerou.

O olhar fixou.

E, dessa vez, ele não deixou que ela desaparecesse.

— Siga ela.

O hesitou por um segundo motorista.

— Senhor…

— Apenas siga.

A voz dele saiu mais firme do que o normal.

O carro começou a se mover lentamente.

Ana Clara caminhava pelas ruas sem perceber que estava sendo acompanhada. Parou em uma padaria simples, atendeu o atendente com um sorriso discreto, roubou algo pequeno e silencioso.

Nada de luxo.

Nada de excessos.

Nada do mundo dele.

E isso só aumentava ainda mais o interesse.

— Ela não tem…

Ela entrou em uma rua mais tranquila, com casas simples, muros baixos e árvores antigas. Parou diante de um portão pequeno, abriu com cuidado e entrou.

Paulo ficou em silêncio.

— É aqui que ela mora…

Não havia porteiro.

Não havia segurança.

Não havia nada.

Era um mundo completamente diferente dele.

E, pela primeira vez… isso não o levou.

Atraiu.

Dentro de casa, Ana Clara apoiou a bolsa na mesa e respirou fundo.

Mais um dia.

Mais uma batalha vencida.

Ela caminhou até a cozinha, colocou água para esquentar e se encostou levemente na pia, fechando os olhos por alguns segundos.

Algo parecia… diferente.

Uma sensação estranha.

Como se estava sendo observado.

Ela abriu os olhos rapidamente e olhou ao redor.

Nada.

— Deve ser…

Mas aquela sensação não desapareceu completamente.

Do lado de fora, dentro do carro, Paulo ainda observava.

Não havia mais nada para ver.

Ela já estava dentro de casa.

Mesmo assim, ele não conseguiu ir embora.

— Ana…

Ele repetiu o nome, após ter ouvido o atendente da padaria chamá-la.

O nome agora tinha forma.

Tinha.

Tinha significado.

— Ana…

Ele encostou a cabeça no banco, fechando os olhos por um instante.

Aquilo já tinha ido longe demais.

E ele sabia.

Sabia que aquilo não fazia sentido.

Sabia que não era racional.

Sabia que poderia ser um erro.

Mas também sabia…

Que não iria parar.

Ele abriu os olhos novamente, olhando para a casa simples diante dele.

— Eu vou descobrir tudo sobre você.

A frase saiu baixa, quase como uma promessa.

Ou uma obsessão.

E naquela casa simples, sem saber de nada…

Ana Clara preparou um café quente, acreditando que sua vida continuava exatamente como sempre foi.

Sem imaginar…

Que naquele exato momento, alguém estava disposto a atravessar qualquer limite para entrar nela.

Não apenas na vida.

Mas em tudo.

Não penso.

Não desejo.

Sem controle.

E talvez…

Não é possível.

Continua…

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