Helena não dormiu.
O corpo ainda carregava o calor do que tinha acontecido — ou quase acontecido. Mas não era só desejo que a mantinha acordada. Era inquietação.
Era dúvida.
Era o peso de ter ultrapassado um limite que ela sempre jurou que nunca cruzaria.
E pior…
Era o silêncio de Miguel depois.
Ele não a procurou.
Não mandou mensagem.
Não apareceu.
Como se nada tivesse acontecido.
E aquilo… doía mais do que deveria.
O orgulho que fere
Na manhã seguinte, Helena entrou no prédio tentando manter a postura. Rosto firme, olhar controlado, passos decididos.
Mas por dentro… tudo estava bagunçado.
Ela não sabia o que esperar.
Só sabia que precisava vê-lo.
Quando entrou na sala de reuniões, o coração disparou.
Miguel já estava lá.
Sentado.
Conversando.
Rindo.
E não estava sozinho.
Uma mulher estava ao lado dele.
Loira, elegante, confiante demais.
Helena sentiu o estômago apertar.
— Bom dia — disse, tentando soar normal.
Miguel levantou o olhar.
E por um segundo… só um segundo… houve algo ali.
Reconhecimento.
Tensão.
Mas desapareceu rápido demais.
— Bom dia, Helena.
Frio.
Distante.
Profissional.
Como se a noite anterior não tivesse existido.
Aquilo foi como um golpe.
— Essa é a Camila — ele continuou. — Vai trabalhar conosco por um tempo.
Camila sorriu.
— Prazer.
Helena forçou um sorriso de volta.
Mas por dentro… algo já estava queimando.
Ciúmes.
Rápido.
Intenso.
Incontrolável.
O que incomoda revela
A reunião começou.
Helena tentou focar.
Tentou ouvir.
Tentou ignorar.
Mas era impossível.
Miguel e Camila trocavam olhares.
Conversavam próximos.
Riam baixo.
E cada detalhe parecia aumentar algo dentro dela.
Aquilo não fazia sentido.
Ela não tinha direito.
Não tinha espaço.
Mas sentia.
E sentia forte demais.
Quando a reunião terminou, todos começaram a sair.
Menos Helena.
Menos Miguel.
E… Camila.
— Então, Miguel, depois a gente continua aquilo — disse Camila, tocando de leve o braço dele.
Helena viu.
E aquilo foi o suficiente.
Camila saiu.
A porta se fechou.
E o silêncio voltou.
Mas não era o mesmo silêncio de antes.
Esse era pesado.
Carregado.
Perigoso.
Helena não conseguiu segurar.
— Aquilo?
Miguel a olhou.
— O quê?
— “A gente continua aquilo” — ela repetiu, cruzando os braços. — O que exatamente vocês têm pra continuar?
Ele franziu levemente a testa.
— Isso não é da sua conta.
A resposta veio direta.
Sem suavizar.
Sem cuidado.
E foi exatamente isso que acendeu tudo.
— Não é da minha conta? — ela riu, sem humor. — Engraçado… ontem parecia que era.
O olhar dele mudou.
Mais sério.
Mais fechado.
— Ontem foi um erro.
As palavras caíram como uma lâmina.
Helena sentiu.
Mas não recuou.
— Foi? Porque não parecia.
— Não deveria ter acontecido.
— Mas aconteceu.
Silêncio.
Tensão.
Eles estavam frente a frente novamente.
Mas dessa vez… não havia suavidade.
Só confronto.
O ciúmes que explode
Helena deu um passo à frente.
— E hoje você simplesmente age como se nada tivesse acontecido… e ainda fica de risinho com outra na minha frente?
— Você está exagerando.
— Eu estou? — a voz dela subiu. — Ou você está fingindo que não aconteceu porque é mais conveniente?
Miguel respirou fundo, tentando manter o controle.
— Helena, isso não pode virar algo maior.
— Já virou.
A resposta veio rápida.
Crua.
Sincera.
E perigosa.
Ele passou a mão no cabelo, visivelmente irritado.
— Você sabe que isso é complicado.
— Não. Você decidiu que é.
— É trabalho.
— E daí?
— E daí que não dá pra misturar.
Ela riu.
Amargo.
— Engraçado… porque você não pensou nisso ontem.
O silêncio caiu pesado entre eles.
Miguel se aproximou.
Mas agora não havia suavidade no gesto.
Havia tensão.
— Você está com ciúmes.
Ele disse baixo.
Quase provocando.
Helena travou.
Mas não negou.
Porque não dava mais.
— E se eu estiver?
O olhar dele escureceu.
— Não deveria.
Aquilo foi o suficiente.
— Claro… — ela soltou, magoada. — Você pode fazer o que quiser. Eu não.
— Não é isso.
— Então o que é?
Ele hesitou.
Por um segundo.
Mas foi o suficiente.
Helena percebeu.
Ele não tinha resposta.
Ou não queria dar.
E isso doeu mais do que qualquer coisa.
O que ninguém consegue controlar
Ela virou o rosto.
Respirou fundo.
Mas não conseguiu ir embora.
Porque, no fundo…
Ela ainda queria uma resposta diferente.
— Me diz uma coisa — ela falou, mais baixo agora. — Ontem… significou alguma coisa pra você?
Miguel ficou em silêncio.
E aquele silêncio…
Respondeu tudo.
Helena assentiu devagar.
Engolindo o que sentia.
— Entendi.
Ela deu um passo para trás.
— Fica tranquilo… não vai se repetir.
A voz dela saiu firme.
Mas por dentro…
Tudo estava quebrando.
Miguel a observou.
Algo nele mudou.
Mas tarde demais.
— Helena…
Ela levantou a mão.
Impedindo.
— Não.
Silêncio.
— Você já deixou claro.
Ela se virou.
Foi até a porta.
Segurou a maçaneta.
E antes de sair, disse sem olhar para trás:
— Só tenta não repetir com a próxima o que você fez comigo.
A porta se abriu.
E se fechou.
Forte.
Miguel ficou sozinho.
Mas o problema…
Não tinha terminado.
Porque, pela primeira vez…
Ele não estava no controle.
E lá fora…
Helena também não.
Porque o que eles estavam tentando negar…
Só estava começando a crescer.




