A verdade que respirava no escuro
Ana Júlia ficou imóvel.
O homem estava parado atrás dela, próximo à porta do quarto secreto.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Ela sentiu o coração bater tão forte que parecia ecoar dentro daquela sala.
— Quem é você? — perguntou, tentando manter a voz firme.
O homem deu um passo à frente.
A luz fraca revelou seu rosto.
Ana Júlia arregalou os olhos.
Ela o conhecia.
Não pessoalmente, mas já havia visto aquele rosto.
Era o homem que aparecia ao fundo de algumas fotografias antigas de Marcelo.
— Você… — murmurou ela.
— Eu sabia que um dia você encontraria esta sala.
Ana Júlia recuou.
— Como você entrou aqui?
— Marcelo me deu a chave há muito tempo.
Ela olhou para a porta.
— Então você trabalha para ele?
O homem balançou a cabeça.
— Eu trabalhei.
A resposta aumentou ainda mais a desconfiança.
— Qual é o seu nome?
— Ricardo.
Ana Júlia respirou fundo.
— O que você sabe sobre Helena?
Ricardo olhou para as fotografias espalhadas pelas paredes.
— Mais do que deveria.
— Então me conte.
Ele permaneceu em silêncio.
— Eu já fui enganada demais — continuou Ana Júlia. — Não vou aceitar mais uma mentira.
Ricardo aproximou-se de uma fotografia.
Era a imagem de Helena segurando um bebê.
— Esta menina é a chave de tudo.
Ana Júlia se aproximou.
— Onde ela está?
Ricardo olhou diretamente para ela.
— Você está mais perto dela do que imagina.
A criança desaparecida
Ana Júlia sentiu um arrepio.
— Laura disse que a menina foi adotada.
— Foi o que fizeram você acreditar.
— Quem?
— Marcelo.
O nome do marido fez o estômago de Ana Júlia se contrair.
— O que Marcelo fez com essa criança?
Ricardo respirou fundo.
— Quando Helena descobriu que estava grávida, contou a João Paulo. Ele ficou desesperado porque sabia que Marcelo também tinha motivos para querer aquela criança longe dele.
— Por quê?
— Porque a existência da menina poderia destruir a vida que Marcelo havia construído.
Ana Júlia sentiu as lágrimas surgirem.
— Marcelo matou Helena?
Ricardo não respondeu imediatamente.
— Eu não vi o momento em que ela morreu.
— Mas sabe quem fez isso?
— Sei quem estava lá.
Ana Júlia aproximou-se.
— Quem?
Ricardo olhou para a porta.
— Marcelo não estava sozinho naquela noite.
Ela sentiu um calafrio.
— Quem estava com ele?
Antes que Ricardo respondesse, ouviram um barulho vindo da frente da casa.
Os dois ficaram imóveis.
Um carro havia parado do lado de fora.
Ricardo apagou a luz.
— Quem chegou? — sussurrou Ana Júlia.
— Não sei.
— Você precisa me contar.
— Agora não.
Ricardo segurou o braço dela e a conduziu para trás de uma estante.
Passos atravessaram o corredor.
Ana Júlia reconheceu a voz.
— Ana Júlia?
Era Marcelo.
O retorno de Marcelo
Ela levou a mão à boca.
Marcelo havia sido liberado.
— Ana Júlia! — chamou novamente.
Ricardo fez sinal para que ela permanecesse em silêncio.
A maçaneta do quarto começou a girar.
Ana Júlia fechou os olhos.
A porta abriu.
Marcelo entrou.
Ele acendeu a luz.
Por alguns segundos, ficou olhando as fotografias.
Então percebeu a gaveta aberta.
Seu rosto endureceu.
— Eu sabia.
Ana Júlia saiu de trás da estante.
— Sabia o quê?
Marcelo se virou bruscamente.
— Que você encontraria isso.
— Por que você guardava essas fotografias?
— Porque precisava proteger você.
Ela soltou uma risada amarga.
— Me proteger?
— Sim.
— De quem?
Marcelo ficou em silêncio.
Ana Júlia apontou para as fotografias.
— De Helena?
Ele desviou o olhar.
— De João Paulo?
Nada.
— Ou de você mesmo?
Marcelo fechou a porta.
— Você não entende.
— Então explique!
— Não posso.
— Você sempre diz isso!
Ana Júlia se aproximou.
— Eu quero saber quem era Helena, por que ela estava aqui e por que existem fotografias minhas nesta sala de antes de eu conhecer você.
Marcelo respirou fundo.
— Porque eu já conhecia sua família.
Ana Júlia congelou.
— Minha família?
— Sim.
— Como?
Marcelo hesitou.
— Seu pai trabalhava para minha família.
A revelação a deixou confusa.
— Isso não explica minhas fotografias.
— Explica mais do que você imagina.
Uma ligação do passado
Marcelo caminhou até uma gaveta e retirou um envelope antigo.
— Antes de nos conhecermos, eu já sabia quem você era.
Ana Júlia pegou o envelope.
Dentro havia documentos, fotografias e uma carta.
Ela abriu a primeira folha.
Era uma certidão.
Seu nome estava ali.
Mas havia algo que chamou sua atenção.
Uma segunda assinatura.
Helena.
Ana Júlia levantou os olhos.
— Por que Helena assinou um documento relacionado a mim?
Marcelo ficou pálido.
— Porque ela conhecia você.
— Desde quando?
— Desde antes de você saber da existência dela.
Ana Júlia sentiu a cabeça girar.
— Isso não faz sentido.
Marcelo se aproximou.
— Helena não entrou na sua vida por acaso.
— Então por quê?
Ele respirou fundo.
— Porque ela estava tentando encontrar você.
Ana Júlia ficou sem palavras.
— Me encontrar?
— Sim.
— Por quê?
Marcelo não respondeu.
Nesse momento, Ricardo saiu de seu esconderijo.
Marcelo ficou surpreso.
— Você!
Ricardo encarou-o.
— Acabou, Marcelo.
— Você não deveria estar aqui.
— E você não deveria ter mantido tudo escondido por tantos anos.
Ana Júlia olhou de um para o outro.
— Chega!
Os dois ficaram em silêncio.
— Eu quero a verdade. Agora.
Ricardo falou:
— Helena descobriu que a filha não havia morrido.
Ana Júlia sentiu o coração parar.
— A filha dela?
— Sim.
— E onde está?
Ricardo olhou para Marcelo.
— Pergunte a ele.
O segredo de Marcelo
Ana Júlia virou-se para o marido.
— Onde está a filha de Helena?
Marcelo fechou os olhos.
— Eu não sei.
Ricardo respondeu imediatamente:
— Mentira.
Marcelo avançou contra ele.
— Cuidado!
Ana Júlia colocou-se entre os dois.
— Não!
Ela encarou Marcelo.
— Você sabe onde ela está?
Ele ficou em silêncio.
— Marcelo!
Finalmente, ele respondeu:
— Está viva.
Ana Júlia sentiu as pernas fraquejarem.
— Onde?
— Eu não posso dizer.
— Por quê?
— Porque ela corre perigo.
— De quem?
Marcelo olhou para Ricardo.
— Deles.
Ana Júlia não entendeu.
— Quem são eles?
Antes que alguém respondesse, um disparo ecoou do lado de fora.
Todos se abaixaram.
O vidro da janela se estilhaçou.
Ana Júlia gritou.
Ricardo puxou-a para o chão.
Marcelo correu até a janela.
— Eles nos encontraram.
— Quem? — perguntou Ana Júlia.
Marcelo olhou para ela.
— As pessoas que mataram Helena.
A fuga
Ricardo abriu uma porta escondida atrás de uma estante.
— Por aqui!
Ana Júlia hesitou.
— Para onde?
— Se quiser continuar viva, venha.
Ela olhou para Marcelo.
Por um instante, não sabia em quem confiar.
Então outro disparo atingiu a parede.
Não havia tempo.
Ana Júlia correu.
Os três atravessaram um corredor estreito que levava para os fundos da casa.
A noite havia tomado conta da fazenda.
Eles chegaram perto do rio.
O som da água escondia seus passos.
— Para onde vamos? — perguntou Ana Júlia.
Ricardo apontou para a mata.
— Existe uma casa abandonada do outro lado.
Marcelo segurou o braço dela.
— Não vá com ele.
Ana Júlia puxou o braço.
— Eu não confio mais em você.
A frase atingiu Marcelo.
— Ana Júlia…
— Você mentiu para mim durante anos.
— Fiz isso para proteger você.
— Talvez você tenha feito isso para proteger a si mesmo.
Ela seguiu Ricardo.
Marcelo ficou parado.
Mas, antes que desaparecesse na mata, Ana Júlia ouviu a voz dele:
— Sua mãe conhecia Helena!
Ela parou.
Virou-se lentamente.
— O quê?
Marcelo respirou fundo.
— Sua mãe e Helena eram amigas.
Ana Júlia sentiu um frio no corpo.
— Minha mãe morreu quando eu era criança.
— Eu sei.
— Então como ela conhecia Helena?
Marcelo não respondeu.
Ricardo puxou Ana Júlia.
— Temos que ir.
A carta escondida
Na pequena casa abandonada, Ricardo acendeu uma lamparina.
Ana Júlia estava tremendo.
— Quero saber tudo.
Ricardo tirou um envelope do bolso.
— Helena deixou isso para você.
— Para mim?
— Sim.
Ana Júlia pegou o envelope.
Havia seu nome escrito na frente.
Ana Júlia.
Ela abriu.
Dentro havia uma carta.
As primeiras linhas fizeram seus olhos se encherem de lágrimas.
“Ana Júlia, se você estiver lendo isto, significa que eu não consegui contar pessoalmente a verdade sobre sua origem.”
Ela parou de respirar.
Sua origem?
Continuou lendo.
“Você passou a vida acreditando que conhecia sua história. Mas há uma parte dela que foi escondida de você.”
Ana Júlia levantou os olhos.
— Isso não pode ser verdade.
Ricardo permaneceu calado.
Ela continuou.
A última frase da carta dizia:
“Eu não sou apenas a mulher que você acredita conhecer. E sua mãe não morreu da forma como lhe contaram.”
Ana Júlia deixou a carta cair.
— Minha mãe está viva?
Ricardo olhou para ela.
— Não.
— Então o que Helena quis dizer?
Ele demorou a responder.
— Que sua mãe foi assassinada.
Ana Júlia ficou em choque.
— Por quem?
Ricardo aproximou-se.
— Pelo mesmo homem que matou Helena.
Antes que Ana Júlia pudesse perguntar mais alguma coisa, ouviu-se um barulho do lado de fora.
Alguém estava chegando.
Ricardo apagou a lamparina.
No escuro, uma voz feminina ecoou pela mata:
— Ana Júlia!
Ela reconheceu aquela voz.
Era Laura.
Mas havia algo estranho.
Laura não estava sozinha.
Ao lado dela estava uma jovem mulher.
E, quando Ana Júlia viu seu rosto iluminado pela lua, sentiu o coração parar.
Ela era idêntica a Helena.
E então a jovem disse:
— Eu sou sua irmã.

