Entre a Honra e o Desejo — Capítulo 3

A chave do passado

O helicóptero pousou no quartel pouco antes do amanhecer.

Carolina desceu sem dizer uma palavra.

A missão havia terminado, mas as perguntas apenas começavam.

Enquanto os outros soldados eram encaminhados para avaliação médica, ela ficou parada no pátio, observando o General Augusto Montenegro conversar com dois oficiais.

Ele parecia tranquilo.

Mas Carolina sabia que não estava.

Durante toda a viagem de volta, ele havia evitado falar sobre o pai dela, sobre o traidor dentro do Exército e, principalmente, sobre a frase que ouvira naquela construção abandonada.

“A soldado Carolina é a verdadeira chave.”

Ela precisava descobrir o significado.

E não pretendia esperar que Augusto decidisse contar.

Quando entrou no alojamento, encontrou um envelope sobre sua cama.

Não havia remetente.

Carolina abriu.

Dentro havia apenas uma fotografia antiga.

Seu pai aparecia ao lado de Augusto, ainda muito jovem.

Atrás deles havia um terceiro homem.

Carolina reconheceu imediatamente.

Era o coronel Henrique Vasconcelos, um oficial que havia ocupado um dos cargos mais importantes do comando anos atrás.

No verso da fotografia havia uma frase:

“Seu pai morreu tentando proteger o homem errado.”

Carolina sentiu um arrepio.

Quem havia deixado aquilo ali?

E, principalmente, o que queriam que ela descobrisse?

O confronto com Augusto

Carolina não esperou.

Foi diretamente ao gabinete do general.

Bateu duas vezes.

— Entre.

Ela entrou.

Augusto estava sentado diante de uma pilha de documentos.

Ao vê-la, levantou os olhos.

— Você deveria estar descansando.

Carolina colocou a fotografia sobre a mesa.

— Quero respostas.

Augusto olhou para a imagem.

Seu rosto mudou.

Foi apenas por um instante.

Mas Carolina percebeu.

— Onde conseguiu isso?

— Estava no meu alojamento.

Ele pegou a fotografia.

— Quem deixou?

— Não sei.

Augusto ficou em silêncio.

— O senhor conhecia meu pai.

— Sim.

— E conhecia o coronel Henrique.

— Sim.

— Então me diga o que aconteceu.

Augusto levantou-se.

— Seu pai era um excelente oficial.

— Isso não responde.

— Ele descobriu uma operação clandestina.

— A mesma operação da qual estou sendo chamada de chave?

Augusto ficou imóvel.

Carolina aproximou-se.

— Eu ouvi o que aqueles homens disseram.

Ele respirou fundo.

— Então chegou a hora de você saber parte da verdade.

— Parte?

— Ainda não posso contar tudo.

Ela ficou furiosa.

— Sempre a mesma resposta!

Augusto encarou-a.

— Porque algumas verdades podem colocar você em perigo.

— Já estou em perigo!

— Eu sei.

A voz dele baixou.

— E é justamente por isso que estou tentando mantê-la viva.

Carolina ficou em silêncio.

Augusto caminhou até uma gaveta e retirou uma pequena caixa metálica.

Colocou-a sobre a mesa.

— Seu pai me entregou isso três dias antes de morrer.

Carolina sentiu o coração acelerar.

— Por que nunca me deu?

— Porque ele pediu que eu só entregasse quando tivesse certeza de que você estava preparada.

— E agora está?

Augusto assentiu.

Carolina abriu a caixa.

Dentro havia uma chave, um pendrive e uma carta.

Ela reconheceu a letra imediatamente.

Era de seu pai.

A carta de seu pai

Carolina começou a ler.

“Minha filha, se você estiver lendo isto, significa que Augusto finalmente decidiu contar o que aconteceu.”

Ela levantou os olhos.

— Ele sabia que eu conheceria o senhor?

Augusto assentiu.

Carolina voltou à carta.

“Você sempre foi mais forte do que imaginava. Por isso, não quero que passe a vida acreditando que minha morte foi um acidente.”

As mãos dela começaram a tremer.

Continuou.

“Eu descobri que alguns homens dentro do comando estavam usando operações militares para transportar dinheiro e documentos clandestinos. Quando tentei denunciar, percebi que havia pessoas muito mais poderosas envolvidas.”

Carolina engoliu em seco.

“Henrique estava entre elas.”

Ela parou.

Augusto permaneceu em silêncio.

“Mas havia alguém acima dele. Alguém que eu não consegui identificar.”

Carolina franziu a testa.

“Se eu morrer, proteja Carolina. Não permita que ela descubra tudo antes da hora.”

Ela não conseguiu continuar.

As lágrimas começaram a cair.

Augusto aproximou-se.

— Seu pai sabia que estava sendo seguido.

— E por que não me contou?

— Porque você era criança.

— Eu tinha vinte anos.

— Para ele, ainda era a filha que precisava proteger.

Carolina fechou a carta.

— Quem matou meu pai?

Augusto não respondeu.

Ela o encarou.

— Foi Henrique?

— Não temos provas.

— Mas o senhor sabe.

— Tenho suspeitas.

— Quais?

Augusto desviou o olhar.

— De que Henrique recebeu ordens de alguém acima dele.

Carolina respirou fundo.

— Quem?

Augusto ficou em silêncio.

Então o telefone sobre a mesa tocou.

Ele atendeu.

Seu rosto mudou.

— Entendi.

Desligou.

Carolina perguntou:

— O que aconteceu?

— Henrique desapareceu.

O homem que todos julgavam morto

A notícia se espalhou pelo quartel em poucas horas.

O coronel Henrique Vasconcelos, dado como afastado havia anos, havia desaparecido da residência onde permanecia sob investigação.

Carolina ficou olhando para Augusto.

— Isso não é coincidência.

— Não.

— Ele sabe que encontrei a fotografia.

— Provavelmente.

— Então ele pode estar vindo atrás de mim.

Augusto respondeu:

— Por isso você não vai sair sozinha.

Carolina levantou uma sobrancelha.

— Isso é uma ordem?

— Sim.

— E quem vai me acompanhar?

Augusto ficou em silêncio.

Ela entendeu.

— O senhor?

— Eu.

Carolina cruzou os braços.

— Não acho uma boa ideia.

— Eu também não.

— Então por quê?

Ele a encarou.

— Porque confio em você.

O coração dela acelerou.

— Só em mim?

Augusto demorou alguns segundos.

— Mais do que deveria.

O silêncio entre os dois ficou intenso.

Carolina desviou os olhos.

— General…

— Eu sei.

— Isso não pode acontecer.

— Eu sei.

Mas nenhum dos dois parecia disposto a se afastar.

Uma noite de confissões

Naquela noite, Augusto levou Carolina para uma casa militar usada para proteção de oficiais.

Era isolada e cercada por árvores.

— Ficaremos aqui até descobrirmos onde Henrique está — explicou.

Carolina colocou a mochila sobre a mesa.

— Não gosto disso.

— Eu sei.

— Parece que estamos fugindo.

— Estamos nos protegendo.

Ela olhou para ele.

— O senhor sempre tem uma resposta.

Augusto sorriu.

— É parte do trabalho.

Carolina sentou-se perto da janela.

— Posso fazer uma pergunta pessoal?

— Pode.

— O senhor já amou alguém?

O sorriso desapareceu.

— Sim.

— O que aconteceu?

— Ela morreu.

Carolina sentiu pesar.

— Durante uma missão?

Augusto assentiu.

— Foi há muitos anos.

— E desde então?

— Nunca mais consegui me permitir.

Ela ficou em silêncio.

— Talvez porque tenha medo de perder novamente.

Augusto olhou para ela.

— Talvez.

Carolina baixou os olhos.

— Eu também tenho medo.

— De quê?

— De descobrir que as pessoas que admiro não são quem eu imaginava.

Augusto aproximou-se.

— E eu sou uma dessas pessoas?

Ela o encarou.

— Ainda não sei.

Ele parou diante dela.

— E o que você vê quando olha para mim?

Carolina demorou a responder.

— Um homem que tenta parecer forte o tempo todo.

Augusto sorriu discretamente.

— E o que mais?

— Alguém que carrega culpa.

O sorriso desapareceu.

— Você percebe demais.

— É parte do meu trabalho.

Os dois riram baixinho.

Foi a primeira vez que Carolina viu Augusto realmente relaxado.

Por alguns segundos, não existia general nem soldado.

Apenas um homem e uma mulher tentando entender o que sentiam.

Augusto tocou o rosto dela.

Carolina não se afastou.

Os dois ficaram muito próximos.

Mas ele parou.

— Não.

— Por quê?

— Porque você está sob meu comando.

Carolina respirou fundo.

— E se eu não estivesse?

Augusto fechou os olhos.

— Então seria ainda mais perigoso.

O ataque à casa

Um barulho interrompeu o momento.

Augusto imediatamente ficou alerta.

— Fique atrás de mim.

Carolina pegou o equipamento.

— Não.

— Carolina.

— Eu também sei lutar.

Ele quase sorriu.

— Eu sei.

As luzes se apagaram.

Um disparo atingiu a janela.

Os dois se abaixaram.

— Estão aqui — disse Carolina.

Augusto respondeu:

— Sim.

Eles saíram pelos fundos.

A noite estava escura.

Homens avançavam pela propriedade.

Carolina e Augusto conseguiram chegar até o veículo.

Mas, antes de entrarem, ouviram uma voz:

— General Montenegro!

Augusto parou.

Um homem surgiu entre as árvores.

— Henrique.

Carolina sentiu o sangue gelar.

O coronel estava vivo.

E apontava uma arma para os dois.

— Você deveria ter deixado essa história enterrada — disse Henrique.

Augusto colocou-se diante de Carolina.

— Acabou, Henrique.

— Não. Está apenas começando.

Henrique olhou para Carolina.

— Seu pai morreu porque tentou descobrir a verdade.

— Foi você? — perguntou ela.

Henrique sorriu.

— Não fui eu quem apertou o gatilho.

Carolina sentiu o coração disparar.

— Então quem foi?

Henrique olhou para Augusto.

— Pergunte ao general.

Carolina virou-se.

Augusto ficou imóvel.

— Augusto?

Henrique riu.

— Ele nunca contou?

Carolina sentiu o mundo desaparecer.

— Contou o quê?

Henrique respondeu:

— Seu pai não confiava em Augusto.

Augusto levantou a arma.

— Henrique, cale a boca.

— Por quê? Ela merece saber.

Carolina olhou para o general.

— Meu pai confiava no senhor?

Augusto não respondeu.

Henrique continuou:

— Seu pai descobriu que Augusto também estava envolvido na operação.

Carolina sentiu a respiração falhar.

— Isso é mentira.

— É?

Henrique apontou para o pendrive que estava no bolso de Carolina.

— Abra o arquivo que seu pai deixou.

Augusto gritou:

— Não!

Carolina olhou para ele.

Foi naquele momento que entendeu.

Havia algo naquele pendrive que Augusto não queria que ela visse.

A gravação

Eles conseguiram escapar depois que Henrique desapareceu na mata.

De volta à casa, Carolina colocou o pendrive no computador.

Havia apenas um arquivo.

Um vídeo.

Ela apertou para reproduzir.

A imagem mostrou seu pai sentado diante de uma câmera.

Estava nervoso.

— Se alguém estiver vendo isso, significa que não consegui sair.

Carolina levou a mão à boca.

A gravação continuou.

— Augusto, se for você quem estiver assistindo, quero que saiba que nunca consegui descobrir de que lado você está.

Carolina olhou para o general.

Ele estava pálido.

Seu pai continuou:

— Sei que você tentou me proteger. Mas também sei que escondeu informações de mim.

A gravação terminou.

Carolina virou-se lentamente.

— O que ele quis dizer?

Augusto não respondeu.

— General!

Ele respirou fundo.

— Seu pai descobriu que eu estava infiltrado na organização.

— Então você estava trabalhando contra eles?

— Sim.

Carolina ficou confusa.

— Por que ele não sabia?

— Porque eu não podia contar.

— E ele morreu sem saber que o senhor estava tentando ajudá-lo?

Augusto assentiu.

Carolina começou a chorar.

— Então por que parece tão culpado?

Ele demorou.

— Porque eu cheguei tarde demais.

Carolina se aproximou.

— O senhor estava lá?

Augusto fechou os olhos.

— Sim.

Ela sentiu o coração partir.

— O senhor viu meu pai morrer?

— Vi.

— E nunca me contou?

— Eu prometi a ele que protegeria você.

Carolina deu um passo para trás.

— Eu não precisava de proteção.

— Precisava.

— Eu precisava da verdade!

Augusto não respondeu.

Carolina saiu da sala.

Uma escolha impossível

Horas depois, ela estava sentada do lado de fora.

Augusto apareceu.

— Posso sentar?

Ela não respondeu.

Ele sentou mesmo assim.

— Eu sei que você está com raiva.

— Estou.

— Tem direito.

— Eu não sei mais em quem confiar.

Augusto olhou para ela.

— Em mim.

Carolina virou-se.

— Como?

Ele ficou em silêncio.

— Depois de tudo?

— Porque tudo o que fiz foi para impedir que você tivesse o mesmo destino do seu pai.

Ela começou a chorar.

Augusto segurou sua mão.

Dessa vez, ela não afastou.

— Eu odeio quando o senhor faz isso.

— O quê?

— Faz parecer que tudo é simples.

Ele sorriu tristemente.

— Nunca foi.

Carolina apoiou a cabeça no ombro dele.

Foi um gesto pequeno.

Mas mudou tudo.

Augusto fechou os olhos.

Nenhum dos dois falou.

Naquela noite, eles perceberam que o sentimento entre eles já não podia ser ignorado.

Mas também perceberam algo pior.

A missão ainda não havia terminado.

E, no dia seguinte, Carolina receberia uma mensagem anônima com uma fotografia que mudaria completamente sua visão sobre Augusto.

Na imagem, o general aparecia ao lado do homem que havia ordenado a morte de seu pai.

E atrás da fotografia havia apenas uma frase:

“Agora escolha em quem você vai acreditar.”

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