O reencontro
Quando Helena entrou naquele quarto de hotel, não imaginava que o homem sentado diante da janela seria a razão pela qual passaria os próximos meses tentando esquecer o próprio coração.
Ele se virou lentamente.
E, naquele instante, os dois perceberam que já tinham se encontrado antes.
Só não sabiam que aquele reencontro mudaria tudo.
Helena parou junto à porta.
— Você?
O homem sorriu.
— Eu também não esperava encontrar você aqui.
Ela fechou a porta devagar.
— O que está fazendo neste hotel?
— Poderia perguntar a mesma coisa.
— Eu tenho uma reunião.
— Eu também.
Helena respirou fundo.
Fazia sete anos desde a última vez que vira aquele rosto.
Sete anos desde o verão que preferia esquecer.
Ou talvez lembrar.
Seu nome era Rafael.
O primeiro homem que havia feito Helena acreditar que poderia amar alguém de verdade.
E também o primeiro homem que havia partido seu coração.
— Você mudou — disse ele.
Helena tentou sorrir.
— Você também.
Rafael se aproximou.
— Não parece.
— Como assim?
— Seus olhos continuam os mesmos.
Ela desviou o olhar.
— Não comece.
— Começar o quê?
— A falar como falava naquela época.
Ele sorriu.
— Você ainda fica nervosa quando não sabe o que responder.
— Eu não estou nervosa.
— Está.
Helena cruzou os braços.
— Você continua convencido.
— E você continua tentando esconder o que sente.
Ela ficou séria.
— Eu não sinto nada.
Rafael a encarou por alguns segundos.
— Então por que seu coração está batendo tão forte?
Helena sentiu o rosto esquentar.
— Porque estou surpresa.
— Apenas isso?
— Apenas isso.
Rafael deu um passo para trás.
— Tudo bem.
Mas os olhos dele diziam que não acreditava.
Sete anos antes
Naquela época, Helena tinha vinte e quatro anos.
Conheceu Rafael durante uma viagem que deveria durar apenas uma semana.
Ele trabalhava na empresa que organizava o evento em que ela participaria.
O primeiro encontro foi completamente acidental.
Helena havia saído do salão procurando um lugar tranquilo para respirar quando esbarrou nele.
— Desculpa.
Rafael segurou o braço dela antes que deixasse o celular cair.
— Você está bem?
— Sim.
Ele olhou para o aparelho.
— Seu celular quase morreu.
— Diferente de mim.
Ele riu.
— Ainda bem.
Helena sorriu.
Foi assim que começou.
Uma conversa.
Depois outra.
Um café.
Um passeio pela praia.
E, quando perceberam, os sete dias haviam passado.
Na última noite, Rafael a levou até a areia.
O mar estava tranquilo.
— Você vai embora amanhã — disse ele.
— Vou.
— E se eu pedir para você ficar?
Helena olhou para ele.
— Eu ficaria.
— Então fique.
Ela sorriu.
— Não é tão simples.
— Por quê?
— Minha vida está em outra cidade.
— Eu posso ir até você.
— Você nem me conhece direito.
Rafael aproximou-se.
— Conheço o suficiente.
Naquela noite, eles se beijaram.
Foi um beijo demorado, daqueles que fazem o mundo desaparecer.
Helena acreditou que seria o começo de alguma coisa.
Mas, no dia seguinte, Rafael não apareceu no aeroporto.
Ela esperou.
Uma hora.
Duas.
Nada.
Depois descobriu que ele havia viajado para outra cidade a trabalho.
Sem despedida.
Sem mensagem.
Sem explicação.
Helena voltou para casa com o coração partido.
Nunca mais o procurou.
Até aquela noite.
O jantar
— A reunião foi cancelada — disse Rafael.
Helena voltou ao presente.
— O quê?
— Acabei de receber a mensagem.
— Então vou embora.
Ela pegou a bolsa.
— Helena.
Ela parou.
— Quer jantar comigo?
— Não.
A resposta saiu rápido demais.
Rafael sorriu.
— Você nem pensou.
— Não preciso pensar.
— Sete anos e você ainda responde antes de saber o que eu vou perguntar.
— Eu sei onde isso vai dar.
— Não sabe.
— Sei, sim.
Ele aproximou-se.
— Então me diga.
Helena ficou em silêncio.
— Você vai pedir desculpas.
Rafael perdeu o sorriso.
— Eu deveria.
— E depois vai explicar que estava confuso.
— Não foi isso.
— Então o que foi?
Ele respirou fundo.
— Meu pai descobriu que eu queria abandonar a empresa da família.
Helena franziu a testa.
— E?
— Ele me ameaçou.
— Com o quê?
— Com a minha mãe.
Helena ficou surpresa.
Rafael continuou:
— Naquela época, ela estava doente. Meu pai disse que, se eu fosse embora, cortaria todo o tratamento.
Helena não sabia o que dizer.
— Eu tinha medo de perder minha mãe.
— Então você simplesmente desapareceu?
— Sim.
— Poderia ter me contado.
— Eu era jovem e covarde.
Helena sentiu os olhos marejarem.
— Eu achei que você não se importava.
Rafael aproximou-se.
— Eu nunca deixei de me importar.
Ela virou o rosto.
— Não diga isso.
— É a verdade.
— A verdade chegou sete anos atrasada.
Ele baixou os olhos.
— Eu sei.
Uma noite que não deveria acontecer
Apesar de tudo, Helena aceitou jantar.
Foram a um restaurante pequeno no centro da cidade.
Conversaram durante horas.
Riram de lembranças antigas.
Falaram sobre as mudanças que haviam vivido.
Rafael havia deixado a empresa do pai.
Agora tinha seu próprio negócio.
Helena também havia mudado.
Estava mais independente, mais segura.
Mas ainda havia algo daquela jovem de vinte e quatro anos dentro dela.
A mulher que havia esperado por Rafael no aeroporto.
— Você está feliz? — perguntou ele.
Helena demorou.
— Sim.
— Está mesmo?
Ela sorriu.
— Estou tentando.
— E existe alguém?
Ela baixou os olhos.
— Não.
Rafael respirou aliviado.
— E você?
— Também não.
— Por quê?
Ele a encarou.
— Porque nunca encontrei alguém que me fizesse esquecer você.
Helena ficou imóvel.
— Rafael…
— Eu sei que não deveria dizer isso.
— Não deveria mesmo.
— Mas é verdade.
Depois do jantar, ele a acompanhou até o hotel.
Pararam diante da porta.
— Obrigada pelo jantar.
— Helena…
Ela levantou os olhos.
Rafael estava muito perto.
— Eu pensei em você durante todos esses anos.
Ela sentiu o coração acelerar.
— Eu também pensei em você.
Ele sorriu.
— Então não fui o único.
Helena balançou a cabeça.
— Não.
Por um instante, nenhum dos dois se moveu.
Rafael levantou a mão e tocou o rosto dela.
— Posso?
Ela fechou os olhos.
— Não deveria.
— Eu sei.
— Rafael…
Ele esperou.
Helena abriu os olhos.
— Me beije.
Ele não precisou ouvir duas vezes.
O beijo aconteceu.
Dessa vez não havia juventude.
Não havia despedida.
Havia sete anos de saudade.
Quando se afastaram, Helena encostou a testa no peito dele.
— Isso é uma péssima ideia.
Rafael sorriu.
— Provavelmente.
— Eu não quero sofrer novamente.
— Não vou fazer você sofrer.
— Você já fez.
Ele ficou sério.
— Então me dê a chance de consertar.
A mulher que apareceu na porta
Na manhã seguinte, Helena acordou com uma mensagem.
“Preciso falar com você. É importante.”
O número era desconhecido.
Ela respondeu:
“Quem é?”
A resposta chegou imediatamente.
“Uma pessoa que conhece Rafael melhor do que você.”
Helena sentiu um arrepio.
Antes que pudesse responder, ouviu uma batida na porta.
Foi até a entrada.
Quando abriu, encontrou uma mulher elegante, de aproximadamente trinta anos.
— Helena?
— Sim.
A mulher respirou fundo.
— Meu nome é Laura.
— O que você quer?
Laura olhou para dentro do quarto.
Depois para Helena.
— Preciso falar sobre Rafael.
Helena sentiu o coração apertar.
— Quem é você?
Laura hesitou.
— A mulher que estava noiva dele quando você o conheceu.
Helena ficou sem palavras.
— Isso não é possível.
— É.
— Rafael nunca me falou de noiva alguma.
— Eu sei.
Laura entregou uma fotografia.
Helena olhou.
Rafael aparecia abraçado a Laura.
No dedo dela havia um anel.
— Quando essa foto foi tirada?
Laura respondeu:
— Há oito anos.
Helena sentiu o mundo girar.
— Então vocês estavam juntos antes de ele me conhecer?
— Sim.
— E por que terminaram?
Laura ficou em silêncio.
— Porque ele me deixou.
— Por quê?
— Por sua causa.
Helena ergueu os olhos.
— Por minha causa?
Laura assentiu.
— Rafael se apaixonou por você naquele verão.
Helena ficou confusa.
— Mas você disse que estava noiva dele.
— Estava.
— Então por que veio até aqui?
Laura olhou para ela com tristeza.
— Porque Rafael não contou toda a verdade.
Helena sentiu um frio no estômago.
— Que verdade?
Laura respirou fundo.
— Eu não fui apenas a noiva dele.
Helena esperou.
— Eu estava grávida.
O silêncio pareceu tomar conta do corredor.
Helena ficou pálida.
— Grávida?
Laura assentiu.
— E Rafael nunca soube que a criança nasceu.
Helena sentiu a respiração falhar.
— Onde está essa criança?
Laura olhou para ela.
— É exatamente por isso que estou aqui.
A escolha de Helena
Horas depois, Helena estava sentada sozinha no quarto.
A fotografia permanecia sobre a mesa.
Ela não sabia o que pensar.
Rafael havia escondido uma mulher.
Uma gravidez.
Uma criança.
Mas por quê?
Quando ele entrou no quarto, percebeu imediatamente que algo estava errado.
— O que aconteceu?
Helena levantou a fotografia.
— Quem é Laura?
Rafael parou.
O rosto dele mudou.
— Onde você conseguiu isso?
— Ela esteve aqui.
Ele fechou os olhos.
— Meu Deus.
— Você ia me contar?
— Eu não sabia que ela viria.
— Ela disse que estava grávida de você.
Rafael ficou em silêncio.
— Rafael!
— Eu não sabia.
— Ela disse que a criança nasceu.
— Eu nunca soube disso.
Helena levantou-se.
— Então por que ela apareceu agora?
Rafael não respondeu.
— O que você está escondendo?
Ele aproximou-se.
— Nada.
— Eu não acredito mais nessa palavra.
— Helena…
— Você pediu uma segunda chance.
Ela pegou a bolsa.
— Agora eu preciso saber se merece.
Rafael segurou a mão dela.
— Não vá.
Helena olhou para ele.
— Eu passei sete anos tentando esquecer você.
— Eu sei.
— E ontem cometi o erro de acreditar novamente.
— Não foi um erro.
Ela sentiu as lágrimas.
— Talvez não.
Rafael apertou sua mão.
— Então fique.
Helena hesitou.
Por mais que estivesse magoada, ainda sentia algo por ele.
Algo que nunca havia desaparecido.
— Eu vou ficar.
Ele respirou aliviado.
— Mas com uma condição.
— Qual?
— Você vai me contar toda a verdade.
Rafael assentiu.
— Eu conto.
Helena olhou para ele.
— E depois vamos descobrir quem é essa criança.
Ele concordou.
Mas nenhum dos dois percebeu que, do lado de fora do hotel, Laura observava pela janela do carro.
Ao lado dela estava uma menina de sete anos.
A garota segurava uma fotografia antiga de Rafael.
— É ele? — perguntou a criança.
Laura respondeu:
— Sim.
— Meu pai?
Laura olhou para o hotel.
— Sim.
A menina sorriu.
— Então quando vou conhecer ele?
Laura segurou sua mão.
— Em breve.
E, naquele momento, Helena ainda não sabia que o maior obstáculo para seu amor não seria o passado de Rafael.
Seria uma criança inocente que chegaria para mudar completamente o futuro dos dois.

