A verdade que Isadora não queria ouvir
Isadora passou a noite inteira olhando para a fotografia.
Gabriel aparecia ao lado de Marina, muito próximo dela.
A imagem parecia recente.
E, para Isadora, aquilo era suficiente para fazer seu coração sangrar.
Ela havia amado Gabriel com uma intensidade que nunca tinha experimentado antes.
E justamente por isso tinha medo.
Medo de perdê-lo.
Medo de descobrir que todo aquele amor havia sido construído sobre uma mentira.
Na manhã seguinte, ela foi até o endereço indicado na mensagem anônima.
Era uma pequena cafeteria afastada do centro.
Isadora entrou sozinha.
Olhou ao redor.
Marina estava sentada no fundo.
— Você veio.
Isadora puxou a cadeira.
— Fale.
Marina colocou um envelope sobre a mesa.
— Antes de qualquer coisa, quero que saiba que não tenho intenção de ficar com Gabriel.
Isadora riu sem humor.
— Difícil acreditar depois daquela fotografia.
— A fotografia foi feita para parecer exatamente o que você está pensando.
Isadora franziu a testa.
— O que isso significa?
Marina abriu o envelope.
Dentro havia várias fotografias.
Algumas mostravam Gabriel entrando em um prédio.
Outras mostravam Marina conversando com ele.
Mas havia algo estranho.
As datas não correspondiam.
— Essas fotos foram tiradas em momentos diferentes — disse Marina. — Alguém juntou tudo para fazer parecer que Gabriel e eu estávamos juntos.
Isadora olhou para ela.
— Quem faria isso?
Marina respirou fundo.
— É justamente o que estou tentando descobrir.
— E a gravidez?
Marina abaixou os olhos.
— É verdade.
Isadora ficou em silêncio.
— Mas o filho é de Gabriel?
Marina demorou alguns segundos para responder.
— Ainda não sabemos.
Isadora sentiu um aperto no peito.
— Então por que você disse que ele poderia ser o pai?
— Porque ele é uma das possibilidades.
— Você ficou com ele?
— Antes de vocês se conhecerem.
Isadora fechou os olhos.
— E por que apareceu agora?
Marina segurou o envelope.
— Porque alguém está usando a minha gravidez para destruir vocês dois.
A mulher por trás das mensagens
— Quem?
Marina olhou ao redor antes de responder.
— Bianca.
Isadora franziu a testa.
— Quem é Bianca?
— Uma mulher que trabalhou com Gabriel durante anos.
— Eu nunca ouvi falar dela.
— Porque Gabriel não gosta de falar sobre ela.
— Por quê?
Marina respirou fundo.
— Porque ela foi obcecada por ele.
Isadora sentiu o coração acelerar.
— Obcecada como?
— Ela queria se casar com Gabriel. Quando ele recusou, começou a persegui-lo.
— E o que aconteceu?
— Gabriel a afastou da empresa.
Marina tirou outra fotografia do envelope.
Nela, uma mulher elegante aparecia observando Gabriel de longe.
— Essa é Bianca.
Isadora olhou para a imagem.
— Ela está por trás das mensagens?
— Acredito que sim.
— Por quê?
Marina respondeu:
— Porque ela sabe que Gabriel é apaixonado por você.
Isadora ficou em silêncio.
Marina continuou:
— E sabe que seu maior ponto fraco é o ciúme.
Aquelas palavras fizeram sentido.
Gabriel e Isadora eram intensos.
Brigavam.
Se amavam.
Perdiam a cabeça.
E Bianca sabia exatamente como usar isso contra eles.
— Então você não está tentando ficar com Gabriel?
Marina balançou a cabeça.
— Não.
— E a criança?
— Se for dele, quero que ele faça parte da vida dela.
Isadora respirou fundo.
— Eu não sei se consigo lidar com tudo isso.
Marina segurou sua mão.
— Talvez você precise decidir se ama Gabriel o suficiente para confiar nele.
O desaparecimento
Quando Isadora voltou para casa, Gabriel estava esperando.
Ele estava sentado na sala.
Parecia não ter dormido.
Ao vê-la, levantou-se.
— Onde você estava?
Ela colocou a bolsa sobre o sofá.
— Fui encontrar Marina.
Gabriel ficou tenso.
— Você foi sozinha?
— Sim.
— Isadora, eu pedi que não fizesse isso.
— E eu pedi que me contasse a verdade.
Ele se aproximou.
— Ela disse alguma coisa?
— Disse.
— O quê?
— Que alguém está tentando destruir nosso relacionamento.
Gabriel ficou imóvel.
— Bianca.
Isadora sentiu um arrepio.
— Você conhece esse nome.
— Sim.
— Quem é ela?
— Uma pessoa do meu passado.
— O que ela quer?
Gabriel passou a mão pelos cabelos.
— Não sei.
— Você tem certeza?
— Tenho.
— Então por que parece tão assustado?
Gabriel ficou em silêncio.
— Porque ela já tentou fazer isso antes.
Isadora sentiu o coração apertar.
— Antes de mim?
— Sim.
— E você nunca contou?
— Eu não queria trazer problemas para você.
— Você sempre faz isso.
— O quê?
— Decide o que eu preciso saber.
Gabriel se aproximou.
— Eu estava tentando proteger você.
— Eu não preciso que você esconda coisas para me proteger.
Ele segurou o rosto dela.
— Eu sei.
— Então nunca mais faça isso.
Gabriel assentiu.
— Nunca mais.
Isadora encostou a testa na dele.
— Eu fiquei com muito medo.
— Eu também.
— De me perder?
— De perder você.
Ela fechou os olhos.
— Eu amo você.
Gabriel a abraçou.
— Eu também amo você.
Mas, antes que pudessem se beijar, o telefone de Gabriel tocou.
Ele atendeu.
Seu rosto mudou.
— O quê?
Isadora percebeu.
— O que aconteceu?
Gabriel desligou.
— Marina desapareceu.
A busca
Gabriel pegou as chaves.
— Vou procurá-la.
Isadora segurou seu braço.
— Eu vou com você.
— Não.
— Gabriel.
— É perigoso.
— Você acabou de prometer que não esconderia mais nada de mim.
Ele ficou olhando para ela.
— Você tem razão.
Os dois saíram juntos.
A polícia havia localizado o carro de Marina abandonado próximo a uma estrada.
Não havia sinais dela.
Apenas o telefone quebrado.
Gabriel pegou o aparelho.
— Ela recebeu uma mensagem antes de desaparecer.
Isadora perguntou:
— De quem?
Ele mostrou a tela.
“Se quer salvar sua filha, venha sozinha.”
Isadora sentiu o coração disparar.
— Isso foi uma armadilha.
— Sim.
— E ela foi sozinha.
Gabriel apertou os punhos.
— Precisamos encontrar Bianca.
O esconderijo
Depois de algumas horas, uma informação levou os dois até um antigo galpão pertencente a uma empresa que havia sido comprada por Gabriel anos antes.
O local estava abandonado.
Gabriel estacionou o carro.
— Fique atrás de mim.
Isadora olhou para ele.
— Não vou discutir agora.
Os dois entraram.
O galpão estava escuro.
Havia caixas espalhadas pelo chão.
Então ouviram uma voz.
— Gabriel.
Ele parou.
Bianca apareceu.
Segurava uma arma.
Marina estava sentada em uma cadeira atrás dela.
— Solte-a — disse Gabriel.
Bianca sorriu.
— Você ainda se preocupa com ela?
— Ela está grávida.
— Talvez do seu filho.
Gabriel deu um passo.
— O que você quer?
— Quero você.
Isadora sentiu o coração apertar.
Bianca continuou:
— Eu esperei anos.
— Você sabe que eu nunca quis você.
— Porque você estava ocupado demais brincando de apaixonado.
Ela apontou para Isadora.
— Ela não conhece você.
Gabriel respondeu:
— Conhece o suficiente.
Bianca riu.
— Você acha que ela vai ficar depois que descobrir tudo?
Isadora encarou-a.
— Tudo o quê?
Bianca olhou para Gabriel.
— Conte você.
Gabriel ficou em silêncio.
— Conte que você veio até mim há três meses.
Isadora virou-se para ele.
— Você foi até ela?
Gabriel respondeu imediatamente:
— Fui.
— Por quê?
— Para descobrir onde Bianca estava.
— E você não me contou.
— Porque eu estava tentando resolver isso.
Bianca sorriu.
— Está vendo? Ele mente para você.
Isadora respirou fundo.
— Você está tentando me destruir.
— Não. Estou tentando mostrar quem ele realmente é.
Gabriel avançou.
— Acabou, Bianca.
Ela levantou a arma.
— Não se aproxime.
O amor contra o medo
Isadora olhou para Bianca.
— Você acha que se ele me deixar, vai ficar com você?
Bianca ficou em silêncio.
— Mesmo depois de tudo?
— Ele vai perceber que você não merece isso.
Isadora balançou a cabeça.
— Você não entende.
— O quê?
— Gabriel não é uma coisa que alguém possui.
Bianca apertou a arma.
— Cala a boca!
— Você acha que pode obrigá-lo a amar você.
— Eu amo ele!
— Isso não é amor.
Bianca ficou descontrolada.
— Você não sabe o que é amor!
Isadora respondeu:
— Sei, sim.
Olhou para Gabriel.
— Amor é confiar mesmo quando existe medo.
Gabriel olhou para ela.
— Isadora…
Ela continuou:
— Eu tive ciúmes. Fiquei insegura. Quis fugir. Mas nunca quis controlar você.
Bianca começou a chorar.
— Eu só queria que ele me escolhesse.
Gabriel respondeu:
— Eu nunca escolhi você.
O rosto de Bianca desmoronou.
Naquele instante, Marina conseguiu se soltar da cadeira e empurrou uma caixa contra Bianca.
A arma caiu.
Gabriel correu.
Em poucos segundos, conseguiu imobilizá-la.
A polícia chegou logo depois.
Bianca foi presa.
Marina estava livre.
E Isadora finalmente conseguiu respirar.
A dúvida que ainda permanecia
Do lado de fora do galpão, Gabriel encontrou Isadora sozinha.
— Você está bem?
Ela assentiu.
— Agora estou.
Ele segurou sua mão.
— Eu sinto muito.
— Pelo quê?
— Por ter escondido tudo.
— Você deveria ter confiado em mim.
— Eu sei.
— E eu deveria ter confiado em você.
Gabriel a abraçou.
— Podemos começar de novo?
Isadora sorriu.
— Não.
Ele ficou assustado.
— Não?
— Podemos continuar.
Gabriel sorriu.
— Eu amo você.
— Eu também.
Ele a beijou.
Mas havia uma última questão.
A gravidez de Marina.
O resultado
Duas semanas depois, o exame de DNA confirmou a verdade.
Gabriel não era o pai.
Marina estava aliviada.
Gabriel também.
Mas Isadora percebeu que aquele resultado havia mudado alguma coisa.
Não porque agora tudo estava resolvido.
Mas porque os dois haviam aprendido a confiar.
Marina pediu desculpas.
— Eu nunca quis destruir vocês.
Isadora sorriu.
— Eu sei.
— Espero que um dia consiga me perdoar.
— Já perdoei.
Marina olhou para Gabriel.
— Cuide dela.
Ele segurou a mão de Isadora.
— Vou cuidar.
Marina sorriu.
— Ela é a única mulher que conseguiu fazer você perder a cabeça.
Gabriel riu.
— Ela faz isso todos os dias.
Isadora deu um tapa leve no braço dele.
— Idiota.
— Minha idiota.
Ela sorriu.
Um amor sem limites
Meses depois, Isadora e Gabriel viajaram para a praia onde haviam se conhecido.
O mar estava tranquilo.
O céu começava a mudar de cor.
Isadora caminhava descalça pela areia.
Gabriel a observava.
— Está pensando em quê?
— Em tudo que aconteceu.
— Arrependida?
Ela se virou.
— De algumas brigas.
— Eu também.
— De ter sentido ciúmes?
— Muito.
— Eu também.
Gabriel aproximou-se.
— Mas de nós?
Isadora sorriu.
— Nunca.
Ele tirou uma pequena caixa do bolso.
Ela arregalou os olhos.
— Gabriel…
— Espere.
Ele abriu a caixa.
Dentro havia um anel.
— Não quero que você seja apenas a mulher que amo.
Isadora começou a chorar.
— Então o quê?
— Quero que seja a mulher com quem vou dividir todos os meus dias.
Ele segurou a mão dela.
— Isadora, eu já perdi tempo demais longe de você. Quer se casar comigo?
Ela não respondeu imediatamente.
Apenas chorou.
Gabriel sorriu nervoso.
— Isso é um sim ou você está pensando?
Ela riu.
— É um sim, seu louco.
Ele colocou o anel em seu dedo.
Ela o abraçou.
— Você sabe que eu ainda vou sentir ciúmes.
— Eu também.
— Vamos continuar brigando.
— Provavelmente.
— E você vai me irritar.
— Todos os dias.
— Então por que estamos fazendo isso?
Gabriel beijou sua testa.
— Porque eu prefiro passar a vida discutindo com você do que viver um único dia sem você.
Isadora sorriu.
— Essa foi boa.
— Foi verdadeira.
Ela o beijou.
Para sempre
Alguns meses depois, os dois se casaram.
Não houve uma festa enorme.
Apenas familiares e amigos próximos.
Quando Isadora entrou, Gabriel ficou emocionado.
Ele olhou para ela como se ainda fosse aquela mulher que havia derramado café em sua camisa no primeiro encontro.
Só que agora não havia mais medo.
Não havia segredos.
Não havia outra mulher.
Não havia fotografias falsas.
Havia apenas os dois.
Depois da cerimônia, Isadora aproximou-se dele.
— Está feliz?
Gabriel segurou sua cintura.
— Mais do que imaginei.
— Mesmo com todos os meus ciúmes?
— Principalmente.
— Você é louco.
— Por você.
Ela sorriu.
— Eu também sou louca por você.
Os dois se beijaram enquanto os convidados aplaudiam.
Mais tarde, já sozinhos, Gabriel olhou para a mulher que agora carregava seu sobrenome.
— Posso confessar uma coisa?
— Pode.
— Eu tive medo de perder você todos os dias.
Isadora acariciou seu rosto.
— Eu também.
— Mas descobri uma coisa.
— O quê?
— O amor não é não sentir ciúmes.
Ela sorriu.
— Então o que é?
— É escolher confiar mesmo quando o coração está com medo.
Isadora encostou a cabeça no peito dele.
— E nós aprendemos.
Gabriel beijou seus cabelos.
— Do jeito mais difícil.
Ela levantou o rosto.
— Mas aprendemos.
Do lado de fora, a noite estava tranquila.
As luzes da cidade brilhavam.
E, pela primeira vez, Isadora não sentia medo de perder Gabriel.
Porque agora sabia que o amor deles não dependia de promessas vazias.
Dependia de escolhas.
Todos os dias.
E eles escolheriam um ao outro.
Mesmo nas discussões.
Mesmo nos ciúmes.
Mesmo quando a insegurança aparecesse.
Porque algumas paixões são tranquilas.
Outras são intensas.
Mas existem aquelas que simplesmente enlouquecem duas pessoas e, ainda assim, fazem com que elas encontrem o lugar onde sempre deveriam estar.
Nos braços uma da outra.
Isadora sorriu.
— Gabriel?
— Sim?
— Eu ainda acho você um pouco convencido.
Ele riu.
— E eu ainda acho você impossível.
— Então estamos quites.
— Nunca.
Ele a puxou para perto.
— Você ainda me deve uma vida inteira de beijos.
Ela sorriu.
— Então vai ter que ficar comigo por muitos anos.
Gabriel beijou-a.
— Era exatamente esse o meu plano.
FIM

