Quando a disciplina começa a se tornar algo difícil de manter
O corredor do quartel ficou silencioso naquela noite.
A maioria dos oficiais já havia sido recolhida, e apenas algumas luzes permanentes acesas ao longo do prédio administrativo. O vento frio atravessava as janelas abertas e fazia as cortinas balançarem lentamente, criando um ambiente estranho, quase inquietante.
A tenente Helena Duarte caminhava pelo corredor segurando uma pasta de relatórios contra o peito.
Ela sabia exatamente para onde estava indo.
E também sabia que talvez não devesse estar indo.
A porta do gabinete do general estava entreaberta.
A luz dourada que vinha de dentro iluminava parcialmente o corredor, formando uma linha no chão polido.
Helena respirou fundo.
Bateu duas vezes na porta.
— Entre.
A voz grave do General Augusto Valença ecoou pelo ambiente.
Helena entrou.
O gabinete era amplo, organizado com uma precisão quase obsessiva. Mapas estratégicos estavam espalhados sobre a grande mesa de madeira escura, e o geral analisava alguns documentos quando clamava os olhos.
Os olhares deles se encontraram.
Por um instante, nenhum dos dois falou.
— Tenente Duarte — disse ele, calmamente. — Já passou das vinte e duas horas.
Helena colocou um macarrão sobre a mesa.
— Relatórios da missão de reconhecimento, senhor. Achei que o senhor gostaria de ver ainda hoje.
O general fechou o documento que estava lendo.
Ele se.
Devagar.
Cada passo dele parecia calculado.
Helena tentou manter uma postura firme, como sempre fazia. Ombros alinhados, olhar respeitoso, expressão neutra.
Mas quando ele parou a poucos passos dela, algo mudou.
Sempre mudava.
— Você poderia ter deixado isso na minha mesa pela manhã — disse ele.
— Poderia.
Silêncio.
— Mas não deixou.
Helena sustentou o olhar dele por um segundo a mais do que deveria.
— Não, senhor.
O general inclinou-se levemente para a cabeça, como se estivesse analisando cada detalhe do comportamento dela.
— Está se tornando ousada, tenente.
— Estou apenas cumprindo minhas funções.
Ele caminhou lentamente ao redor da mesa, aproximando-se ainda mais.
Agora estão perto demais.
Perto o suficiente para que Helena perceba o leve aroma amadeirado do perfume dele.
Perto o suficiente para que o coração dela comece a bater mais rápido.
— Suas funções… — repetiu ele, pensativo.
Então abri a pasta que ela havia trazido.
Folheou algumas páginas.
— Excelente trabalho.
Helena relaxou um pouco.
— Obrigada, senhor.
Mas ele não parecia interessado apenas no relatório.
Ele pediu os olhos novamente.
E dessa vez o olhar dele estava diferente.
Mais intenso.
Mais atento.
— Tenente… — disse ele, lentamente — você sabe que há regras neste quartel.
— Sim, senhor.
— Regras muito claras.
Ela assentiu.
— Sei disso.
Ele fechou a pasta com firmeza.
— Então explique por que parece ignorar-las sempre que entram nesta sala.
O coração de Helena disparou.
— Senhor?
Ele deu mais um passo.
Agora estávamos tão próximos que ela poderia sentir a presença dele com intensidade.
— Você me olha como se estivesse me desafiando.
Helena o.
— Não estou desafiando o senhor.
— Tem certeza?
O silêncio entre os dois ficou pesado.
Carregado.
Ela sabia que deveria recuar.
Sabia que deveria encerrar a conversa, fazer continência e sair.
Mas não se moveu.
— General… — começou ela.
Ele su uma mão.
— Cuidado, tenente.
O tom de voz dele havia mudado.
Ficara mais baixo.
Mais perigoso.
— Algumas linhas não devem ser cruzadas.
Helena respirou fundo.
— Talvez elas já tenham sido.
Os olhos do general brilharam.
Por um momento, ele simplesmente a explicou.
Como se estivesse avaliando algo importante.
Algo decisivo.
— Você está ciente do que está dizendo?
— Sim.
Outro silêncio.
Mais longo.
Mais intenso.
Então ele soltou um leve suspiro.
— Isso é exatamente o tipo de situação que eu deveria evitar.
— E vai?
Ele não respondeu imediatamente.
Em vez disso, caminhou até a janela do gabinete e ficou olhando para o pátio escuro do quartel.
Helena observava cada movimento dele.
Uma postura rígida.
Os ombros tensos.
Ele parecia lutar contra alguma coisa.
Finalmente falei:
— Você é um dos melhores oficiais deste batalhão.
— Eu sei.
Ele virou o rosto lentamente.
— E também é o que mais testa minha paciência.
Helena recostou discretamente.
— Não sabia que geralmente tinham paciência.
Ele voltou a se aproximar.
Mais uma vez a distância entre eles diminuídos.
— Temos.
— E a sua está acabando?
Ele parou bem diante dela.
— Está perigosamente perto disso.
Helena sentiu o calor subir pelo rosto.
Não de vergonha.
Mas de algo mais complicado.
Algo que ela vinha tentando ignorar desde o primeiro dia em que havia sido designado para aquele batalhão.
— Então talvez eu deva sair, senhor.
Ela fez menção de pegar um macarrão.
Mas a mão dele tocou o documento antes.
O gesto foi rápido.
Mas o toque entre os dedos deles foi revelador.
E ficou no ar por um segundo a mais do que deveria.
Os doissimam.
Os dois fingiram não perceber.
O geral soltou a massa lentamente.
— Talvez fosse o mais sensato.
Helena pegou o documento.
Mas não se mova imediatamente.
— O senhor sempre escolhe o que é mais sensato?
Ele observou o rosto dela com atenção.
— Sempre tento.
— E quando não?
Ele respondeu sem hesitar.
— Então alguém pode acabar se metendo em sérios problemas.
Helena inclinou levemente a cabeça.
— Isso é como uma ameaça.
— É um aviso.
Ela respirou fundo.
O ar parecia mais pesado dentro desse gabinete.
– Em geral…
— Sim?
— Se eu estiver cruzando uma linha… o senhor deveria me mandar parar.
Ele manteve o olhar firme no dela.
— Eu deveria.
Outro silêncio.
Mas dessa vez havia algo diferente nele.
Algo que nenhum dos dois parecia disposto a admitir em voz alta.
— Boa noite, tenente — disse ele finalmente.
Helena fez continência.
— Boa noite, general.
Ela se virou.
Caminhou até a porta.
Abriu.
Mas antes de sair, ouvi a voz dele novamente.
— Tenente Duarte.
Ela levantou por cima do ombro.
— Senhor?
O olhar dele estava intenso.
Mais do que antes.
— Amanhã teremos outra reunião estratégica.
— Sim, senhor.
Ele fez uma pequena pausa.
— Quero que você esteja presente.
Helena assentiu.
— Estarei.
então caiu.
A porta fechou lentamente atrás dela.
No corredor silencioso, Helena parou por um momento.
Respirou fundo.
Tentando recuperar a calma.
Dentro do gabinete, o alojamento geral.
Observando a porta fechada.
Sabendo que algo havia mudado.
E que talvez…
Já fosse tarde demais para impedir.




