Capítulo 2 – Entre o Desejo e o Perigo

Quando o coração não obedece

O silêncio da fazenda naquela noite parecia mais pesado do que o normal.

Helena estava na varanda da casa principal, segurando uma xícara de café já frio, olhando para o horizonte escuro. A lua iluminava parcialmente os campos, revelando o movimento lento dos animais ao longo… mas não era isso que ocupava sua mente.

Era ele.

Ricardo.

O jeito como ele a segurou mais cedo naquele dia ainda queimava em sua pele. Não foi apenas um gesto. Foi um aviso. Um domínio. Um tipo de intensidade que ela nunca havia sentido antes — e que, no fundo, a assustava.

Ela respirou fundo, tentando recuperar o controle.

— Isso não pode acontecer… — você sussurrou para si mesma.

Mas já estava acontecendo.

Do outro lado da propriedade, Ricardo não foi o melhor.

Ele caminhava de um lado para o outro no escritório, com a camisa parcialmente aberta, o olhar duro, inquieto.

Helena havia mexido com algo dentro dele que ele não conseguia controlar.

Isso o irritava profundamente.

Ricardo sempre foi um homem de domínio absoluto. Da terra, dos negócios… e de si mesmo.

Até agora.

Ele parou bruscamente, apoiando as mãos na mesa.

— Droga…

O problema não era só o desejo.

Era o jeito como ela o enfrentaria. Como não abaixava a cabeça. Como olhar diretamente nos olhos dele, sem medo.

Ou talvez… com um tipo diferente de medo.

Um que ele reconhecia.

Um que também sentiu.

Na manhã seguinte, o clima na fazenda estava estranho.

Os funcionários cochichavam. Comentários baixos, olhares trocados.

Algo estava errado.

Helena viu assim que chegou ao galpão principal.

— O que está acontecendo aqui? — disse firme.

Um dos funcionários hesitou.

— Dona Helena… sumiram alguns equipamentos ontem à noite.

Ela congelou.

— Como assim… sumiram?

— Ferramentas, peças do trator… e parte do estoque do depósito menor.

O coração dela apertou.

Isso não foi apenas um descoberto.

Era sabotagem.

E na mesma hora, um pensamento perigoso surgiu em sua mente:

Alguém de dentro.

Ricardo chegou logo depois, com passos firmes e expressão fechada.

— Já sabe.

Helena cruzou os braços.

— Isso não é coincidente.

Os olhos dele encontraram os dela, intensos.

— Eu sei.

Havia algo mais ali.

Algo que ele ainda não tinha dito.

— Fala — ela.

Ricardo se moveu devagar, parando perto demais.

— Isso começou antes de você chegar.

Helena Franziu a testa.

— Então por que eu não fui informado?

— Porque eu queria resolver sozinho.

— E resolveu?

O silêncio respondeu por ele.

A tensão entre os dois crescia a cada segundo.

— Você não pode esconder esse tipo de coisa de mim — Helena disse, a voz compartilhada.

— Eu posso, se for necessário.

— Estou aqui pra ajudar, não pra ficar mantido no escuro!

Ricardo deu um passo à frente, agora perigosamente próximo.

— E eu não pedi ajuda.

As palavras foram como um golpe.

Mas Helena não se prenda.

— Talvez seja exatamente o seu problema.

Os olhos dele praticaram.

— Cuidado com o que você diz.

— Ou o quê? — ela provocou, o coração acelerado — Vai me afastar também?

O ar entre eles ficou pesado.

Carregado.

Explosivo.

Ricardo segurou o braço dela com firmeza.

Não com violência.

Mas com intensidade.

— Você não faz ideia do que está confundindo, Helena.

A respiração dela falhou por um segundo.

— então me explica.

O olhar dele desceu para os lábios dela.

E por um instante… tudo ao redor distante.

— Você me tira do controle — ele disse, baixo, rouco.

O corpo dela reagiu imediatamente.

Mas sua mente ainda lutava.

— Isso não é problema meu.

— É, sim.

O tom dele mudou.

Mais profundo.

Mais perigoso.

— Porque eu não sei até onde me consigo segurar com você.

O coração dela disparou.

Aquilo não era apenas desejo.

Era algo mais escuro.

Mais intenso.

Quase… obsessivo.

Helena removeu o braço, tentando recuperar o controle.

— Isso não é saudável.

— Desde quando você quer algo saudável?

Ela abriu a boca… mas não respondeu.

Porque ele estava certo.

Ela também sentiu.

E isso a assustava.

— Temos um problema maior aqui — ela disse, forçando a racionalidade — Alguém está sabotando uma fazenda.

Ricardo passou a mão pelo rosto, voltando ao foco.

— Eu já suspeito de alguém.

— Quem?

Ele hesitou.

E isso foi suficiente para Helena perceber.

— Você não quer me contar.

— Ainda não.

— Isso não é decisão só sua!

— Aqui, é.

A discussão voltou com força.

Mas dessa vez… havia algo diferente.

Desconfiança.

— Se você não confia em mim, eu não posso trabalhar aqui — Helena disse, firme.

Ricardo trabalhou.

Aquilo… ele não esperava.

— Não fala besteira.

— Eu não estou brincando.

Ela deu um passo atrás.

— Ou você joga limpo comigo… ou eu vou embora.

O olhar dele mudou.

E pela primeira vez…

Houve medo.

Não o medo comum.

Mas o medo de perder algo que ele ainda não sabia nomear.

— Você não vai embora — ele disse, baixo.

— Isso não depende de você.

— Depende, sim.

Ele se mudou de novo, agora mais controlado… mas ainda intenso.

— Porque eu não vou deixar.

Helena engoliu seco.

— Isso não é escolha sua.

— Você tem certeza?

O tom dele carregava algo perigoso.

Algo que fez um arrepio percorreu a espinha dela.

O silêncio caiu entre os dois.

Pesado.

Carregado de tudo que não estava sendo dito.

Até que…

— Se alguém está contra a fazenda — Helena falou — então essa pessoa está observando.

Ricardo assentiu lentamente.

— E esperando o momento certo.

— Ou provocando a gente.

Os olhos deles se encontraram.

E naquele instante, ambos entenderam:

Aquilo não era apenas sobre negócios.

Era.

Muito

Naquela noite, Helena não conseguiu dormir.

Algo dentro dela dizia que estavam sendo observados.

Ela pediu, inquieta, e caminhou até a janela.

E então…

Ela viu.

Uma luz.

Se movendo perto do galpão antigo.

O coração disparou.

Sem pensar, ela pegou um casaco e saiu.

Do lado de fora, o vento estava mais frio.

E o silêncio… mais ameaçador.

Helena caminhou devagar, tentando não fazer barulho.

A luz ainda estava lá.

Se.

Alguém estava ali.

Quando ela se…

Um barulho atrás dela.

Ela virou rapidamente.

Mas não viu ninguém.

E então—

Uma mão forte afastada ela pela cintura.

— Você enlouqueceu?! — a voz de Ricardo explodiu no ouvido dela.

Ela levou um susto.

— Eu vi alguém!

— E sozinho?!

— Eu não ia ficar parada!

Ele estava furioso.

Mas havia algo mais ali.

Preocupação.

Intensa.

Quase… desesperada.

— Você não pode sair assim! — ele disse, segurando o rosto dela — Isso é perigoso!

— Eu não sou fraca!

— Eu sei!

A voz dele cortada por um segundo.

— E é exatamente isso que me preocupa.

O olhar deles se encontrado.

Muito perto.

Muito intenso.

A luz no galpão se apagou de repente.

Os dois olharam ao mesmo tempo.

Tarde demais.

Quem estava lá… já tinha sumido.

Helena voltou o olhar para Ricardo.

— Agora você entende?

Ele assentiu, sério.

— Isso não é mais suspeito.

— É certeza.

O silêncio.

Mas agora… carregado de algo ainda maior.

Perigo.

Desejo.

É uma conexão que nenhum dos dois pode mais negar.

Ricardo segurou o rosto dela novamente.

Dessa vez, mais devagar.

Mais intenso.

— Eu não vou deixar nada acontecer com você.

O coração dela acelerou.

— Você não manda em tudo.

Ele se reserva mais.

— Em você… eu quero mandar.

A respiração dela falhou.

E antes que pudesse reagir—

Ele a beijou.

Dessa vez, sem controle.

Sem barreiras.

Com uma intensidade que misturava raiva, desejo e algo perigosamente próximo da obsessão.

E beijinhos…

Helena entendeu.

Aquilo não era apenas um romance.

Era um risco.

Um vício.

E talvez…

Um erro impossível de evitar.

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