Capítulo 4 – A Linha Que Não Pode Ser Cruzada

Quando o dever entrar em guerra com o que o coração começa a sentir

O amanhecer no quartel sempre chegava cedo.

Antes mesmo do sol surgir completamente no horizonte, os primeiros soldados já estavam no pátio para os exercícios matinais. O som ritmado das botas contra o chão ecoava entre os prédios de concreto, lembrando a todos que naquele lugar disciplina era mais do que uma regra.

Era uma lei.

A tenente Helena Duarte observava a entrega pela janela do seu alojamento.

Mas sua mente não estava ali.

Não estava no gabinete do general.

Na noite anterior.

Sem silêncio pesado.

Nos olhares que demoraram demais.

Ela passou a mão pelos cabelos, tentando afastar aqueles pensamentos.

— Concentre-se — murmurou para si mesma.

Vestiu o uniforme com resultados impecáveis. Cada botão alinhado. Cada detalhe no lugar.

Como sempre.

Mas por dentro… algo estava diferente.

Muito diferente.

No mesmo momento, no prédio administrativo, o General Augusto Valença já estava no seu gabinete.

Sentado atrás da mesa.

Mas sem ler nenhum documento.

A pasta da missão de reconhecimento ainda estava aberta diante dele.

Ele havia lido aquelas páginas três vezes.

E não lembrava de uma única linha.

O pensamento dele voltava sempre para a mesma cena.

Helena parada diante dele.

O olhar firme.

Perto de Perigoso.

Ele fechou a pasta com força.

— Isso precisa parar — disse em voz baixa.

Mas uma parte dele sabia que não seria tão simples.

Algumas horas depois, começou uma reunião estratégica.Oficiais importantes estavam sentados ao redor da grande mesa oval da sala de comando.Os mapas foram elaborados na tela.

Dados táticos sendo discutidos.

Planos de movimentação.

Mas Helena mal consegue se concentrar.

Porque do outro lado da mesa estava ele.

O general.

E sempre que ela levantava os olhos… o olhar dele parecia encontrá-la.

Como se estivesse tendo uma conversa silenciosa.

Uma conversa que ninguém mais na sala poderia perceber.

— Tenente Duarte.

A voz do coronel interrompeu seus pensamentos.

— Sim, senhor?

— Qual sua avaliação da rota norte da operação?

Helena respirou fundo.

E respondeu com firmeza.

— A rota norte oferece cobertura natural e menor exposição, mas exige maior tempo de deslocamento. Em caso de emergência, a evacuação seria mais complicada.

O coronel assentiu.

— Excelente análise.

Mas Helena não deixou de perceber algo.

O general ainda estava olhando para ela.

E dessa vez… havia algo diferente no olhar dele.

Priv.

Mas também algo mais profundo.

Algo que ela não consegue definir.

Quando a reunião terminou, os oficiais começaram a sair da sala.

Helena recolheu seus documentos.

Tentando sair completamente.

Mas respondi à voz que já esperava.

— Tenente Duarte.

Ela pariu.

Virou-se lentamente.

— Senhor?

O general estava em pé perto da mesa.

Os outros oficiais já tinham saído.

Agora estavam sozinhos.

Outra vez.

— Preciso falar com você — disse ele.

O coração dela acelerou.

— Sim, senhor.

Ele indicou a porta.

— No meu armário.

Minutos depois, Helena estava novamente naquele lugar.

O mesmo gabinete.

A mesma mesa.

A mesma tensão no ar.

O general fechou a porta atrás deles.

E por alguns segundos não disse nada.

Caminhou até a mesa.

Colocou um documento sobre ela.

— Seu desempenho na reunião foi excelente.

— Obrigada, senhor.

— Você sempre foi um exemplar oficial.

Helena percebeu que ele parecia escolher cada palavra com cuidado.

— Isso significa muito vindo do senhor.

Ele respirou fundo.

— É justamente por isso que precisamos conversar.

Helena cruzou os braços atrás das costas.

Postura militar perfeita.

Mas o coração batia forte.

— Estou ouvindo.

Ele ficou surpreso por alguns segundos.

Como se estivesse tentando entender algo que ainda não conseguia explicar.

— O que aconteceu ontem à noite… — começou ele.

Helena não se encaixa no olhar.

— Sim.

— Aquilo não pode acontecer novamente.

A frase foi firme.

Direta.

Mas havia tensão na voz dele.

— Não aconteceu nada, senhor.

Ele deu um passo à frente.

— Você sabe exatamente o que estou falando.

O silêncio voltou a preencher o ambiente.

Helena respirou fundo.

— O senhor está preocupado com a disciplina.

— Estou preocupado com muitas coisas.

— Como o quê?

Ele hesitou.

Algo raro para alguém tão controlado.

— Como as consequências.

Helena inclinou levemente a cabeça.

— Consequências para quem?

Ele respondeu sem pensar.

— Para nós dois.

O coração dela disparou.

Mas ela manteve a postura firme.

— Então o senhor admite que existe algo acontecendo.

O general fechou os olhos por um segundo.

Como se estivesse lutando contra aquela pergunta.

Quando os abrimos novamente, o olhar estava intenso.

— Eu admito que isso é um problema.

— Só um problema?

Ela deu um pequeno passo à frente.

Agora vieram outra vez.

Perigô.

— Tenente… — disse ele, em tom de aviso.

– Em geral…

Ela parou a poucos centímetros dele.

— O senhor me pediu para ser sincero uma vez.

— E ainda assim.

— então vou ser.

O silêncio ficou pesado.

Carregado de expectativa.

— Eu não estou confundindo respeito com outra coisa.

Ele não respondeu.

— Eu sei exatamente o que estou sentindo.

Os olhos dele se closeram.

— Isso é imprudente.

— Talvez.

— É contra todas as regras.

— Eu sei.

— Pode destruir sua carreira.

Helena respirou fundo.

— Talvez.

Ele deu um passo ainda mais perto.

Agora praticamente não havia distância entre eles.

— Então por que continua avançando?

Ela respondeu em voz baixa.

— Porque o senhor também não recua.

A frase ficou suspensa no ar.

Pesada.

Irrefutável.

O general passou a mão pelos cabelos.

Um gesto raro de frustração.

— Você faz ideia do que está provocando?

— Tenho algumas supostas.

Ele riu baixo.

Sem humor.

— Tenente Duarte… você é a mulher mais perigosa deste batalhão.

— E o senhor é o homem mais difícil de ler.

Os dois ficaram se encarando.

A tensão entre eles era quase palpável.

Como se o ar estivesse carregado de eletricidade.

Então aconteceu algo inesperado.

O general conseguiu a mão.

E por um segundo… parecia que iria tocar o rosto dela.

Mas parou no meio do movimento.

A mão ficou suspensa no ar.

Apenas alguns centímetros de distância.

Helena não se moveu.

Também não todo.

Os dois ficaram assim por alguns segundos.

Presos naquele momento.

Entre o dever…

E algo muito mais forte.

Finalmente, ele abaixou a mão.

— Isso precisa parar.

Mas dessa vez… a frase não é tão convincente.

Helena deu um passo para trás.

Respirou fundo.

— Então faça parar, general.

Ele não respondeu.

— Dê uma ordem.

O olhar dele se corrigiu no dela.

— Você obedeceria?

Ela hesitou pela primeira vez.

Um segundo apenas.

— Eu sempre obedeço ordens.

O geral sustentou o olhar dela.

Mas algo em sua expressão revelou que ele sabia.

Sabia que aquela resposta… não era totalmente verdadeira.

— Vá descansar, tenente — disse finalmente.

— Sim, senhor.

Helena fez continência.

Virou-se.

E caminhou até a porta.

Mas antes de sair, ouvi a voz dele novamente.

Mais baixa.

Mais carregado.

— Helena.

Ela pariu.

Porque ele nunca a chamou pelo primeiro nome.

Virou-se lentamente.

— Senhor?

O olhar dele era diferente.

Mais intenso do que nunca.

— Isso ainda vai nos trazer problemas.

Ela respondeu com calma.

— Talvez já esteja trazendo.

então caiu.

A porta foi fechada atrás dela.

E o general aparece parado no meio do gabinete.

Sabendo de uma coisa com absoluta certeza.

A linha que ele jurou nunca cruzar…

Estava ficando cada vez mais difícil de manter.

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